Sofia Coppola
É muito fácil gostar de alguém que você nunca conheceu. Alfred Hitchcock, Evelyn Waugh, Marlon Brando, Peter Sellers, são todos admirados apesar das histórias sobre como agiam de forma casualmente babaca. Hitchcock que tratava os atores muito mal (não que não merecessem), Evelyn Waugh e a coisa de não brincar com crianças, Marlon Brando que depois de um tempo perdia o interesse em qualquer pessoa e desaparecia, Peter Sellers que era promíscuo, egocêntrico, etc.. Escolho meus ícones, às vezes porque são rudes, mas sempre partindo do pressuposto de que jamais seriam grossos comigo ou com as pessoas que eu aprovo porque eu, ao contrário das pessoas normais, sou sensacional e tenho um gosto maravilhoso. Óbvio que seriam um pouco cretinos, uns mais que os outros, mas é algo que eu posso ignorar por não viver ou ter vivido com eles. É tão mais fácil ter um relacionamento com alguém com quem você nunca conviveu ou vai conviver.
Não quero soar muito anti-social, juro que não sou tão anti-social, mas eu diria que esse é o tipo de relacionamento perfeito, não conviver. Quando Dustin Hoffman apareceu destruído, após passar noites sem dormir para ficar com mais cara de torturado em uma cena, Laurence Olivier disse para ele tentar atuar e é uma história engraçada porque ele foi espirituoso, ainda que de forma totalmente bitchy. Se estivesse lá, acharia que ele foi um idiota.
Sempre que penso como seria conviver com Marilyn Monroe, Greta Garbo, penso em todas as decepções possíveis. Marilyn Monroe sendo irremediavelmente deprimida e Greta Garbo nunca retornando as minhas ligações. Eu temo que não suportaria e as abandonaria. Claro, se me oferecessem agora a chance de voltar no tempo e passar um final de semana (ou mesmo alguns anos) com cada uma dessas pessoas, eu o faria simplesmente porque eu não posso saber como seria. Mesmo que acabasse sendo horrível, acho que aquelas pessoas que podem ou puderam dizer "Marilyn Monroe? Pff, nunca mais janto na casa dela" são pessoas de extrema sorte.
Na vida real, não conheço muitos babacas (ou pessoas) pelas quais me sinto feliz por ter conhecido. Tive um professor de pintura, um caso raríssimo, que era terrível e me humilhava constantemente, mas aprendi muito com ele. Na escola e na faculdade, salvo alguns amigos, não tive tanta sorte. Sempre caí nas piores classes, com as pessoas que eu mais abominava e que nunca fizeram nada por mim, nem mesmo indiretamente - mas só eram realmente abomináveis porque eu as conhecia e tinha passado anos com elas, convivendo com elas todos os dias. Quando penso nos meus relacionamentos que acabaram sem nem começar, tento dizer para mim mesma que provavelmente seriam babacas e dos que não valeriam a pena, que não me ensinariam absolutamente nada ou me renderiam uma história engraçada que fosse. Não é um conforto que dura por muito tempo, mesmo sabendo que eram babacas que não valiam a pena. Nada melhor para esquecer alguém por completo do que saber o quanto ele ou ela era verdadeiramente terrível, como você já suspeitava.
Nunca conhecer pessoas admiráveis pode ser uma bênção. Sonhei que conhecia Takeshi Kitano e gostaria de fazê-lo antes que ele morra ou fique completamente gagá, mas pode ser que ele seja terrível com fãs ou gaijins, vai saber. Tarantino parece gostar ou desgostar das pessoas por motivos aleatórios. E se ele resolve, do nada, cuspir em mim? Você sabe que J.D. Salinger não vai responder seus emails.
Algumas pessoas, porém, parecem ser perfeitas, mesmo na convivência. Eu não acredito que Hayao Miyazaki seria rude com qualquer pessoa ou criatura viva e deve, provavelmente, mastigar com a boca fechada e sem fazer um único som, uma qualidade de caráter (sim, caráter) que estimo muito. Pode ser difícil se aproximar de Wes Anderson, mas ainda acho que o esforço não seria em vão. E Bill Murray sempre é Bill Murray.
*
Tive de editar esse texto muitas vezes e, sempre que isso acontece, é como se minha afeição pela idéia original fosse se desgastando. Talvez eu seja assim com pessoas. Sempre que sinto necessidade de editar isso ou aquilo, vou desgostando um pouco do conjunto todo. Isso não pode ser bom.
Não quero soar muito anti-social, juro que não sou tão anti-social, mas eu diria que esse é o tipo de relacionamento perfeito, não conviver. Quando Dustin Hoffman apareceu destruído, após passar noites sem dormir para ficar com mais cara de torturado em uma cena, Laurence Olivier disse para ele tentar atuar e é uma história engraçada porque ele foi espirituoso, ainda que de forma totalmente bitchy. Se estivesse lá, acharia que ele foi um idiota.
Sempre que penso como seria conviver com Marilyn Monroe, Greta Garbo, penso em todas as decepções possíveis. Marilyn Monroe sendo irremediavelmente deprimida e Greta Garbo nunca retornando as minhas ligações. Eu temo que não suportaria e as abandonaria. Claro, se me oferecessem agora a chance de voltar no tempo e passar um final de semana (ou mesmo alguns anos) com cada uma dessas pessoas, eu o faria simplesmente porque eu não posso saber como seria. Mesmo que acabasse sendo horrível, acho que aquelas pessoas que podem ou puderam dizer "Marilyn Monroe? Pff, nunca mais janto na casa dela" são pessoas de extrema sorte.
Na vida real, não conheço muitos babacas (ou pessoas) pelas quais me sinto feliz por ter conhecido. Tive um professor de pintura, um caso raríssimo, que era terrível e me humilhava constantemente, mas aprendi muito com ele. Na escola e na faculdade, salvo alguns amigos, não tive tanta sorte. Sempre caí nas piores classes, com as pessoas que eu mais abominava e que nunca fizeram nada por mim, nem mesmo indiretamente - mas só eram realmente abomináveis porque eu as conhecia e tinha passado anos com elas, convivendo com elas todos os dias. Quando penso nos meus relacionamentos que acabaram sem nem começar, tento dizer para mim mesma que provavelmente seriam babacas e dos que não valeriam a pena, que não me ensinariam absolutamente nada ou me renderiam uma história engraçada que fosse. Não é um conforto que dura por muito tempo, mesmo sabendo que eram babacas que não valiam a pena. Nada melhor para esquecer alguém por completo do que saber o quanto ele ou ela era verdadeiramente terrível, como você já suspeitava.
Nunca conhecer pessoas admiráveis pode ser uma bênção. Sonhei que conhecia Takeshi Kitano e gostaria de fazê-lo antes que ele morra ou fique completamente gagá, mas pode ser que ele seja terrível com fãs ou gaijins, vai saber. Tarantino parece gostar ou desgostar das pessoas por motivos aleatórios. E se ele resolve, do nada, cuspir em mim? Você sabe que J.D. Salinger não vai responder seus emails.
Algumas pessoas, porém, parecem ser perfeitas, mesmo na convivência. Eu não acredito que Hayao Miyazaki seria rude com qualquer pessoa ou criatura viva e deve, provavelmente, mastigar com a boca fechada e sem fazer um único som, uma qualidade de caráter (sim, caráter) que estimo muito. Pode ser difícil se aproximar de Wes Anderson, mas ainda acho que o esforço não seria em vão. E Bill Murray sempre é Bill Murray.
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Tive de editar esse texto muitas vezes e, sempre que isso acontece, é como se minha afeição pela idéia original fosse se desgastando. Talvez eu seja assim com pessoas. Sempre que sinto necessidade de editar isso ou aquilo, vou desgostando um pouco do conjunto todo. Isso não pode ser bom.
