Million Dollar Kiss
I ain't never been cool.

29.4.08

Sofia Coppola

É muito fácil gostar de alguém que você nunca conheceu. Alfred Hitchcock, Evelyn Waugh, Marlon Brando, Peter Sellers, são todos admirados apesar das histórias sobre como agiam de forma casualmente babaca. Hitchcock que tratava os atores muito mal (não que não merecessem), Evelyn Waugh e a coisa de não brincar com crianças, Marlon Brando que depois de um tempo perdia o interesse em qualquer pessoa e desaparecia, Peter Sellers que era promíscuo, egocêntrico, etc.. Escolho meus ícones, às vezes porque são rudes, mas sempre partindo do pressuposto de que jamais seriam grossos comigo ou com as pessoas que eu aprovo porque eu, ao contrário das pessoas normais, sou sensacional e tenho um gosto maravilhoso. Óbvio que seriam um pouco cretinos, uns mais que os outros, mas é algo que eu posso ignorar por não viver ou ter vivido com eles. É tão mais fácil ter um relacionamento com alguém com quem você nunca conviveu ou vai conviver.
Não quero soar muito anti-social, juro que não sou tão anti-social, mas eu diria que esse é o tipo de relacionamento perfeito, não conviver. Quando Dustin Hoffman apareceu destruído, após passar noites sem dormir para ficar com mais cara de torturado em uma cena, Laurence Olivier disse para ele tentar atuar e é uma história engraçada porque ele foi espirituoso, ainda que de forma totalmente bitchy. Se estivesse lá, acharia que ele foi um idiota.
Sempre que penso como seria conviver com Marilyn Monroe, Greta Garbo, penso em todas as decepções possíveis. Marilyn Monroe sendo irremediavelmente deprimida e Greta Garbo nunca retornando as minhas ligações. Eu temo que não suportaria e as abandonaria. Claro, se me oferecessem agora a chance de voltar no tempo e passar um final de semana (ou mesmo alguns anos) com cada uma dessas pessoas, eu o faria simplesmente porque eu não posso saber como seria. Mesmo que acabasse sendo horrível, acho que aquelas pessoas que podem ou puderam dizer "Marilyn Monroe? Pff, nunca mais janto na casa dela" são pessoas de extrema sorte.
Na vida real, não conheço muitos babacas (ou pessoas) pelas quais me sinto feliz por ter conhecido. Tive um professor de pintura, um caso raríssimo, que era terrível e me humilhava constantemente, mas aprendi muito com ele. Na escola e na faculdade, salvo alguns amigos, não tive tanta sorte. Sempre caí nas piores classes, com as pessoas que eu mais abominava e que nunca fizeram nada por mim, nem mesmo indiretamente - mas só eram realmente abomináveis porque eu as conhecia e tinha passado anos com elas, convivendo com elas todos os dias. Quando penso nos meus relacionamentos que acabaram sem nem começar, tento dizer para mim mesma que provavelmente seriam babacas e dos que não valeriam a pena, que não me ensinariam absolutamente nada ou me renderiam uma história engraçada que fosse. Não é um conforto que dura por muito tempo, mesmo sabendo que eram babacas que não valiam a pena. Nada melhor para esquecer alguém por completo do que saber o quanto ele ou ela era verdadeiramente terrível, como você já suspeitava.
Nunca conhecer pessoas admiráveis pode ser uma bênção. Sonhei que conhecia Takeshi Kitano e gostaria de fazê-lo antes que ele morra ou fique completamente gagá, mas pode ser que ele seja terrível com fãs ou gaijins, vai saber. Tarantino parece gostar ou desgostar das pessoas por motivos aleatórios. E se ele resolve, do nada, cuspir em mim? Você sabe que J.D. Salinger não vai responder seus emails.
Algumas pessoas, porém, parecem ser perfeitas, mesmo na convivência. Eu não acredito que Hayao Miyazaki seria rude com qualquer pessoa ou criatura viva e deve, provavelmente, mastigar com a boca fechada e sem fazer um único som, uma qualidade de caráter (sim, caráter) que estimo muito. Pode ser difícil se aproximar de Wes Anderson, mas ainda acho que o esforço não seria em vão. E Bill Murray sempre é Bill Murray.

*

Tive de editar esse texto muitas vezes e, sempre que isso acontece, é como se minha afeição pela idéia original fosse se desgastando. Talvez eu seja assim com pessoas. Sempre que sinto necessidade de editar isso ou aquilo, vou desgostando um pouco do conjunto todo. Isso não pode ser bom.

26.4.08

[Rec]

Assisti [Rec], filme espanhol sobre um grupo de pessoas confinadas em um prédio que vai lentamente ficando infestado de zumbis, e gostei muito. Comparam ao Cloverfield e ao Blair Witch Project, porque é feito com câmera na mão, além do 28 Days Later, porque tem zumbis que correm, mas são filmes completamente diferentes, que inspiram sensações diferentes. [Rec] é aflitivo. Dei umas puladas no meu sofá e tive de recolher meu maxilar algumas vezes. A cena final me lembrou muito da do Silence of the Lambs, que é uma das cenas mais enervantes de todos os tempos.
O filme é de 2007, a refilmagem americana já está em pós-produção e deve vir pra cá em dezembro como Quarantine, mas acho bom tentar ver o original antes. A versão americana dificilmente vai ser tão simples e eficaz quanto a espanhola porque mesmo com o material completo e pronto, as versões americanas insistem em tentar "melhorar" o conceito original acrescentando mais e mais elementos desnecessários, incluindo provavelmente um CGI babaca, um constante pleonasmo.
Não gosto de falar mal de remakes americanos só porque são remakes americanos, afinal, gosto mais do The Ring do que do Ringu - there, I said it - mas nos últimos anos quase todas as refilmagens de filmes de terror japoneses, coreanos, tailandeses, etc., têm sido infinitamente inferiores.
Apesar de muito bem executado, com até a maquiagem muito boa, [Rec] parece ser relativamente simples e barato de se fazer. Nós poderíamos ter feito sem nenhum problema e com um terço do dinheiro de um único filme do Walter Salles, mas não fizemos porque somos bobos e consideramos o entretenimento muito pouco válido diante da relevância das questões sociais do país, blabla.
Enfim, acho que não vai passar no cinema e não sei nada sobre um possível lançamento em dvd. Eu achei o filme no Demonoid, mas deve ter em algum outro lugar. Procurem pois vale a pena.

Algumas das reações ao filme durante uma exibição:



E o trailer oficial:

19.4.08

Neko

Tem um momento no vídeo abaixo em que o gato fica como uma pessoa, apoiado nas patas de trás e, então, ele olha para a câmera, se lembra "ooh, humanos na sala" e volta disfarçadamente a se apoiar com as quatro patas. No fim do vídeo, aparece um outro gato, totalmente assustado, muito provavelmente pensando "dude, você quase estragou tudo". Juro.

18.4.08

Continuando

Pessoas normais nunca pesquisam. Pessoas normais não podem saber muito de alguma coisa porque isso seria completamente anormal. Uma pessoa que saiba muito, mas muito mesmo sobre, digamos, design de interiores só pode ser anormal. Mesmo que a pessoa normal viva disso ou ame aquilo, ela nunca vai procurar saber muito sobre seus interesses ou mesmo paixões. Uma pessoa normal pode passar anos assistindo uma coisa besta que nem CSI sem nunca saber qual o nome do ator principal e que ele fez Manhunter, o primeiro filme em que o Hannibal Lecter aparece. Porque gente normal abomina conhecimento específico, prefere muito mais possuir alguma informação geral de todas as coisas do universo a dominar o universo completo de uma só coisa. Uma pessoa normal sabe da existência do CSI, mas não sabe mais nada sobre isso, quem produz, quem dirige, que música toca, nada.
Por isso, pessoas normais são sempre profissionais medianos, conselheiros medíocres e pessoas desinteressantes. Conheci um técnico de informática que ainda usava Internet Explorer, veja só, e no tempo em que o IE ainda nem tinha copiado as "guias" do Firefox. No Brasil - essas pessoas normais são muito brasileiras - é bem possível saber mais sobre um assunto do que um suposto expert, simplesmente porque essa gente não sabe usar o google direito ou ler em inglês. Mais do que não saber como pesquisar, pessoas normais não enxergam nenhum mérito em saber muito sobre alguma coisa. Como é difícil para todas as pessoas normais escolherem a exata mesma coisa para conhecerem muito bem, e as pessoas normais precisam ser parecidas, quase idênticas, pesquisar ou saber muito sobre algo em específico é muito anti-social.
Porque eu não sou normal, acho absurdamente sexy pessoas que dominam o conhecimento de algum campo muito obscuro. É o tipo de esforço desinteressado que pode prejudicar a vida social e afetiva de alguém e mesmo assim a pessoa prossegue, caminhando sensualmente para a sabedoria e a adoração fofa e total de algum tema. Não há nada mais desvalorizado do que o amor de uma pessoa normal. Como ela nunca se dedica inteiramente a coisa alguma, não importa o quanto goste delas, ela jamais vai amar alguém de verdade.

17.4.08

Adeus, Amazônia

Por alguma razão, tenho o costume de chamar aqueles que são totalmente diferentes de mim de "pessoas normais". Não me acho anormal, aliás, acho que sou uma das últimas pessoas de bom senso do mundo todo. Acredito que qualquer um que se importe com os rumos da própria vida deveria me consultar para uma série de coisas. Mesmo não sendo anormal, não posso dizer que sou completamente normal como as "pessoas normais".
Apesar de serem numerosas, as pessoas normais são todas muito parecidas e discordam muito pouco entre si, criando assim uma "normalidade", ou seja, uma constituição comum que faz com que caso você conheça uma pessoa normal, você conheça todas elas. Pessoas normais adoram a Madonna, é um fato. Às vezes, as pessoas normais escolhem objetos realmente merecedores de alguma apreciação - não é o caso da Madonna - mas sempre por acidente e não por algum insight muito esperto, como queijo ou chocolate. Pessoas normais também gostam de Central do Brasil e do Green Peace, coitados.
Para uma coisa, pessoa ou idéia ser gostada por pessoas normais, ela não precisa ser realmente boa, mas só de fácil aceitação social - ah, cuidar da natureza é legal, né? falar da pobreza do nosso país é super relevante, né?. As pessoas normais nunca, eu repito, nunca são estranhas. Elas nunca surpreendem, elas nunca tem uma opinião controversa ou gostam de algo que seria facilmente odiado por uma nação toda composta de tias meio carecas que reclamam de violência em videogames. Uma pessoa normal nunca fala mal de PETA, nunca fala bem dos Estados Unidos, tem vergonha de não gostar de política.
Pessoas normais não são necessariamente normais, mas elas não podem dizer nada que cause alguma surpresa ou estranhamento, para que possam viver sempre, bem, normalmente. Por isso, pessoas normais nunca terminam amizades por causa de discussões relacionadas a gosto, elas irão sempre concordar ou, eca, respeitar, para evitar qualquer esforço individual ou possível atrito. Mais do que isso, pessoas normais nunca querem parecer desagradáveis ou serem odiadas pelas outras pessoas normais e vão fazer de tudo para permanecerem sempre mimosinhas.
Eu odeio publicidade. Sério. Odeio. Em grande parte porque nunca nada é original, é sempre algo que viram em algum filme que muita gente ainda não viu e que nem os próprios publicitários gostam, é sempre uma música do Air ou do Arcade Fire meio disfarçada, é sempre a opinião de alguma outra pessoa, um outro produto que é parecido com aquele mas não é exatamente aquele. Pessoas normais, assim como a publicidade, só repetem porcamente o que viram por aí, nunca é algo realmente sincero ou mesmo uma mentira contada com muita convicção.
Sempre que vejo alguém falar do meio ambiente, fico com vontade de chutar um coala porque eu sei que aquela pessoa realmente não se importa. Uma pessoa normal, por mais que fale sobre livros, músicas, filmes, sentimentos e idéias nunca verdadeiramente acredita no que fala, nunca realmente sente ou ama qualquer coisa. Do contrário, jamais seriam "normais".

11.4.08

Rob's Party Mix Tape

Uma nova muxtape, dessa vez, com algumas das músicas que tocam na festa de Cloverfield. Elas ficam disponíveis até eu arranjar alguma outra lista legal.

4.4.08

Pet Peeves

No qual me esforço para me tornar ainda menos popular:

- Odeio gente anti-Bush. Quando conheço alguém anti-Bush, sei que não tenho nada em comum com aquela pessoa. Que mesmo que ela leia os mesmos livros, ouça as mesmas músicas, ela não os compreende da forma que deveria e, portanto, não aprecia nada de verdade. Porque gente anti-Bush é muito ralé, é muito Luciano Huck. Deixa de ser sobre Bush em si. A pessoa que vai nessa moda de ser anti-Bush, comprando camisetas, adorando aquelas imagens que misturam Bush e Hitler e sendo fã de Michael Moore, só pode ser muito, muito idiota. Não tem discussão. É uma pessoa obviamente idiota.

- 99,999% das tatuagens não deveriam ser feitas. A maioria dos tatuadores são mais burros do que um eletrodoméstico. Meu liquidificador entende mais de arte e combinação de cores do que qualquer tatuador. Com o tempo, o treco perde a definição, fica borrado, deformado, enrugado e a idéia por trás do desenho nunca foi muito boa pra começar. Fadas, golfinhos, borboletas, tudo inacreditavelmente estúpido. É só assistir um minuto de Miami Ink. Tem sempre um garoto burro que quer um muro de tijolos explodindo, uma corrente ao redor e um dragão chinês andando de skate no meio, sem falar dos retratos de parentes em que todos ficam demoníacos e as tribais que são pura falta do que fazer. Mesmo que você tenha uma boa idéia, você sabe que o tatuador vai estragar tudo, que ele vai errar as cores ou fazer uma Marilyn Monroe nariguda que vai ficar com você para o resto da vida como um caso severo de estrabismo.

- Acho usar drogas uma coisa muito brega, especialmente aquela, a mais banal de todas. Sem falar dos efeitos colaterais, da burrice permanente causada pelo uso contínuo, a extroversão irritante, os dreadlocks nojentos, o som de reggae que acompanha essa gente, o cheiro horrível, etc., é um ato obviamente de pobre, que te iguala a qualquer lixo branco fedido e casado com a irmã. Sabe aquele casal caipira dos Simpsons que mora num trailer e tem duzentos filhos desdentados? Então. Mesmo que seja uma coisa que se faça em um encontro de publicitários über modernosos ou entre os alunos mais bacaninhas de Artes Plásticas da FAAP, todos eles, sem exceção, têm espírito de trailer. Drogados de boutique (que são, invariavelmente, comunistas de boutique, anti-Bush e tatuados com kanjis cujo significado real desconhecem) são piores do que os caipiras dos Simpsons porque têm escolha, têm recursos, mas mesmo assim fazem a escolha consciente de ser brega.

- Falando nisso, espanhol é brega. Qualquer pessoa que acha que a língua espanhola tem uma sonoridade lindíssima, que é romântico e passional tem problemas seríssimos de gosto ou puro dano cerebral. É algo que nem tem muito o que expor ou explicar. Repetir algumas palavras deveria ser o suficiente para qualquer um perceber que "Jesus, é feio mesmo", mas dificilmente se convence essa gente problemática. Algumas das palavras mais feias que já ouvi eram palavras com significados inofensivos em espanhol, como "dibujos", "abuela" e "aburrido". Qualquer uma dessas palavras - eles abusam demais da sílaba "bu" - é muito pior do que qualquer palavrão em português ou inglês. Qualquer palavrão em francês, então, é infinitamente mais bonito do que "corazón". Sem falar nas palavras puramente cômicas e ridículas, como "pantalones" e "lechuga". Espanhol é sempre ou muito feio ou muito engraçado. Não há nada que tenha uma sonoridade minimamente agradável, bonita ou que se possa levar à sério. Por conseqüência, quase todo filme falado em espanhol é uma tortura. Filmes do Almodóvar, em especial, são de uma crueldade digna dos nazistas.

- Eu odeio, odeio gente que comenta "que maldade" sempre que você estiver brincando, falando muito mal de alguém, só por falar muito mal de alguém. Sim, o propósito é ser maldoso, não é como se eu não soubesse que eu estou sendo maldosa - ao contrário, eu estou me esforçando para tal, e por diversão. Não significa nada e as pessoas que praticam a maldade por esporte sabem disso. Que tipo de relacionamento as pessoas teriam se nunca pudessem falar mal de ninguém? Faz bem à saúde e nunca é sério de verdade. Se odeio mesmo alguém, eu não comento. Falar sobre ela seria dar atenção ao objeto de ódio e faz um mal terrível ao estômago. Pessoas que comentam "que maldade" são do tipo que detestam sarcasmo, que não entendem ou percebem quando alguém está sendo irônico, que se sentem culpadas sempre que dão risada de algo muito politicamente incorreto. São pessoas desinteressantes e de capacidade intelectual muito pequena.

Muxtape

Testando esse muxtape, um site pra compartilhar mp3s como uma mix tape dos anos 80. Por enquanto, fiz essa do The Go! Team.

1.4.08

Walk Don't Run (1966)

Walk Don't Run não é um filme muito bom, mas eu tinha de ver simplesmente porque juntaram "Gary Grant" e "Tokyo" na mesma sinopse. É o último filme do Cary Grant, já com alguma idade, e achei muito parecido com Lost In Translation. Qualquer filme com ocidentais no Japão pode ser bastante parecido com Lost In Translation. Inevitavelmente, vão abordar as diferenças de cultura, a dificuldade de se comunicar, etc., mas Walk Don't Run é mesmo parecido, só tem um personagem a mais.
Cary Grant chega ao Japão dois dias antes do combinado e, por causa das Olimpíadas, não encontra um quarto para se hospedar. Já na primeira cena do filme, os funcionários do hotel se desculpam, abaixando as cabeças infinitamente, gesto que Cary Grant também repete inúmeras vezes. A única diferença entre Cary Grant e Bill Murray é que o Cary Grant parece bastante confortável com esse tipo de gesto, mesmo sendo incomum para ele.
Cary Grant parece sempre muito confortável com qualquer coisa, como se tudo fosse natural ou, pelo menos, fácil de se lidar. Tudo tem de se resolver facilmente com o Cary Grant, ele não precisaria dizer nada, só sorrir e qualquer assunto seria resolvido. Sempre achei meio inacreditável as pessoas acharem que o Cary Grant é um assassino em North by Northwest e ele passar por tanta dificuldade mesmo sendo quem ele é. Só pode ser um péssimo sinal para as pessoas desprovidas de charme que se envolverem em alguma intriga, algum dia. Essa confiança, essa facilidade em lidar com qualquer situação e sempre da melhor forma possível, são das características que o tornam tão atraente, pelo menos pra mim. Mas estou desviando.
Cary Grant vai até o consulado inglês (ele é um Sir!) e encontra um bilhete no quadro de avisos sobre alguém disposto a alugar a um quarto. Depois de alguma resistência da proprietária, imagine, a mocinha de 20-algo hospeda o Cary Grant, mesmo ela morando sozinha e não ficando muito bem morar com um homem desconhecido.
Apesar de estar bastante em forma, o Cary Grant já está com o cabelo todo grisalho e com as rugas um pouco mais notáveis do que estavam em Charade, de três anos antes. Diferentemente do Bill Murray em Lost In Translation, ele está bastante contente com a própria vida. Ele tem filhos e é muito bem casado (só dá pra saber da esposa pelos telefonemas que ele faz para ela, assim como com o Bill Murray).
Antes mesmo de começar a ver o filme, eu achei que a mocinha, a dona do apartamento e noiva de um sujeito chatíssimo chamado Julius P. Haversack, fosse ter alguma coisinha com o Cary Grant mesmo assim, seria natural, mas o filme logo acaba com a possibilidade.
You see, Cary Grant envelheceu com alguma dignidade e não achava que poderia continuar como o galã (que era mesmo, independente da idade) ao contracenar com mulheres mais jovens. Em Charade, ele pediu para que os roteiristas mudassem alguns detalhes pois não achava que podia ser o par romântico da Audrey Hepburn. Poderia, é claro, mas a modéstia do Cary Grant, tão rara em outros atores/diretores velhinhos, é mais um motivo para eu gostar tanto dele.
Em Walk Don't Run, a mocinha recebe uma amiga japonesa em seu apartamento e fica com algum receio do que a amiga poderia achar por estar morando com um homem. Cary Grant pergunta para a japonesa se ela não tinha imaginado que os dois pudessem estar juntos, mas ela responde que não pensou em nada parecido e que achava que ele fosse um parente. Cary Grant se levanta desanimadinho, se olha no espelho e dá um puxãozinho num pedaço de pele debaixo do queixo, mas ele logo supera a questão toda.
O problema do filme é que seria muito natural para os dois se envolverem, eles moram juntos em um país diferente, ela está entediada, ele é incrivelmente charmoso, mas isso nunca acontece como aconteceu em Lost In Translation.
O Cary Grant encontra um cara na rua, também de 20-algo, que não tem onde ficar e acaba hospedando o sujeito na casa da mocinha. A mocinha é controladora, rígida, o cara é arredio, não quer casar, são completos opostos. O Cary Grant decide, do nada, aproximar os dois. É chato para o ator que faz o cara de 20-algo ser comparado com o Cary Grant, não há comparação, e é totalmente irreal a mocinha não preferir o Cary Grant. Ela fica parecendo tonta.
Em Lost In Translation, seria como se o Bill Murray incentivasse a Scarlett Johanssen a sair com, não sei, Orlando Bloom ou Hayden Christensen, mas, pô, qualquer garota inteligente preferiria o Bill Murray - eu preferiria o Bill Murray - simplesmente porque o Bill Murray tem personalidade e é engraçado. I tell yah, homens só precisam ser verdadeiramente engraçados para conquistar meio mundo.
Por mais que o filme não tente de nenhuma forma vender o Cary Grant como o par romântico da história e mesmo ele não fazendo nenhum esforço para ser encantador nesse sentido, sendo sempre só um encantador amigável sem segundas intenções, não consigo deixar de sentir coisas ao vê-lo, especialmente quando ele diz "ikimashou". É um momentinho de um segundo, Cary Grant ajudando umas crianças a atravessarem a rua, 'ikimashou" e eu vou, uh, eu vou.

29.3.08

Nordestern

Um cara me disse, uma vez, que preferia Cidade de Deus ao The Untouchables. Respondi que em The Untouchables as pessoas usavam camisas e sapatos, sem falar nos casacos e nas gravatas, e que isso era um sinal óbvio de superioridade. Fico impressionada com a velocidade que o Canal Brasil me faz rir. Passei pelo Canal Brasil e, juro, em menos de um segundo, ele me fez rir. Algum ator canastrão dos anos 60 conversando com alguém, a imagem bem ruim, e eu só ouvi ele dizendo "eu te tornei IMOR-TAL" e ri de acordar os cachorros. Nem precisa de contexto, não é uma piada que precisa ser construída aos poucos, é incrível. Todo comediante deve invejar esse poder natural que o cinema brasileiro tem de fazer rir, sem esforços.
No final de um filme brasileiro horrível (pleonasmo) chamado Cidade Baixa, tem uma cena de luta, nay, briga, nay, chinelada - porque "luta" e "briga" remetem a Jackie Chan, Jet Li e coisas imensamente mais legais do que as rugas da testa da Fernanda Montenegro ou o olhar cheio de culpa burguesa do Walter Salles. O que eu entendi era isso: Tinha essa garota prenha (de Luís Carlos Prestes?) e ela saía com dois baianos, um aquele gay lá do Madame Satã, e o outro familiar porém obviamente apagado de qualquer memória e os dois tinham essa briga muito emocional e dramática lá porque, pô, é difícil ser pobre. Morri de rir. Eles rolam umas ladeiras, uns baianos não-atores (são mais feios) ficam olhando com cara de "ih, eita, tão filmando" e eu fico torcendo para os dois se machucarem e gosto quando um deles bate a cabeça num degrau. Ah, era a pior maquiagem de sangue que já vi também. Jesus Cristo, não é tão difícil fazer um machucado falso.
Tudo no filme parecia ter o propósito de ser mal feito, nenhum zoom tinha foco, nenhuma cena tinha um enquadramento decente (mais natural, né?) e a câmera tremia quando a garota prenha começou a chorar, limpando os machucados dos dois caras, que também ficam chorando - juro, esse é o final do filme. Por que esse empenho em ser ruim assim? Se pelo menos fosse uma coisa meio Ed Wood e colocassem aliens, vampiros, capivaras assassinas, o que seja.
Toda cinematografia brasileira se beneficiaria de zumbis. Imagine. Central do Brasil com zumbis. A Fernanda Montenegro viaja com o garoto lá, mas eles são atacados por uns jagunços zumbis analfabetos, ela é mordida e ele tem de executá-la com uma calangada na cabeça. Genial!