N: Q, você sabe que eu adoro Kill Bill, que acho maravilhoso e novo, apesar das homages, em cada pedacinho, os dois filmes, mas eu acredito que nunca fizeram um filme com uma mulher cool.
Q: Do que você está falando? Uma é the coolest em Kill Bill... E Pam Grier, em Jackie Brown? Elas são a definição de cool, ok? E apesar de serem mulheres, elas são cool, ok? Não é o fato delas serem mulheres que faz delas cool, odeio esse tipo de cinema feminista, elas simplesmente são, ok?
N: Sem dúvida. Odeio também. Mas você tem de admitir de que parte da graça delas ou, pelo menos, a razão que as fazem daquele jeito dependem de características femininas. I mean, é claro que é legal uma mulher lutar melhor que um homem, e não porque signifique algo, apenas porque é cool, mas elas lutam por causas femininas.
Q: Oh, c´mon... ok?
N: Calma, espera. Eu disse femininas e não feministas. A noiva luta, primordialmente, por sua maternidade. Jackie luta, de sua forma, pela sua velhice. Ok, eu sei que isso não é tão fácil de se ver, mas Jackie conversa com Max Cherry sobre aposentadoria e ela sabe que comissárias de idade não têm futuro e que é diferente envelhecer, sendo mulher. Max diz que estava chateado pela perda de cabelo, então, ele fez algo a respeito, mas é muito mais aceitável um homem com rugas do que uma mulher. I mean, em nenhum dos papéis, poderia haver uma adaptação que coubesse a um homem, simplesmente porque as razões que compõe as personagens mais basicamente são razões femininas.
Q: Yeah, mas isso não quer dizer que elas não sejam cool.
N: Eu sei. Eu não quis dizer isso. Eu quis dizer que não existe nenhum filme em que uma mulher possa ser trocada pelo Harvey Keitel ou Robert DeNiro ou Charles Bronson ou Clint Eastwood. Kill Bill não daria certo se a dinâmica fosse invertida, se fosse o David Carradine que sofresse um massacre e fosse se vingar da Uma Thurman.
Q: Bom, eu não quero filmar os pezinhos do David Carradine. Os pés da Uma ficaram bem feios com todo o treinamento e tal, mas you know me, eu sou pedófilo, mas eu não quero chegar perto do dedinho do David Carradine, com todo respeito ao Davie.
D: Not taken.
N (ignorando o misspelling): Mas você admite que não há uma mulher que seja cool como um homem? Porque quando um homem é cool, ele deixa de ser um homem, e é cool, e não tem sexo, e mulheres quando cool, são sempre mulheres e o gênero e o sexo sempre aparecem, certo? Budd dando um tiro nos peitos da Noiva? Todos os abusos enquanto ela estava em coma? Quando Clint Eastwood aparece, você não pode se lembrar que ele é um homem, ele é Clint Eastwood!
Q: Lady Snowblood. E Lady Snowblood? Dificilmente se lembra que ela é uma mulher. Gee, venha ver uns filmes comigo, ok?
N: I sure will (piscadela) e concordo, mas, mas, ainda existem as cenas de parto e tensão sexual e você pode ver, todo o rancor da história precisa dessa cena de parto, de novo, de coisas femininas. Nenhum pai ou homem seria motivado da mesma forma que A Noiva, ou Jackie, ou Lady Snowblood a fazerem o que fazem, elas envolvem, intrinsecamente, razões femininas.
Q vira os olhos.
N: Wait a sec, você me conhece, não estou falando de Thelma & Louise, for crissake, mas... Olha, eu conheço dúzias e dúzias de homens que sentem medo ao assistir O Bebê de Rosemary, mas let me tellyah somethin, eles não podem sentir nem mesmo um terço do medo que uma mulher pode sentir desse filme. Aliás, é por isso que é tão impressionante, porque você não acredita que um homem pode fazê-lo tão bem. Mas a questão é que nós, mulheres, sonhamos com gravidez desde os oito anos de idade e temos medo desde os oito anos de idade. Eu achava que só eu tinha pesadelos com bebês deformados ou em que eu dava a luz à criaturas e monstros, eu perguntei, então, para algumas amigas se elas sonhavam esse tipo de coisa, e elas disseram que sim! É um medo naturalmente feminino. É natural... Feminismo não é natural, não estou falando de feminismo... Devia haver um filme em que uma mulher pudesse ser cool como o Robert DeNiro em Mean Streets, ou que escrevessem um papel feminino pensando em Charles Bronson em Era Uma Vez No Oeste. É o tipo de coolness que ultrapassa sexo ou raça ou idade ou qualquer coisa... Uma é cool, independemente, mas é por ela ser mulher e mãe, o que obviamente não dispensa a primeira característica, Jackie entra no contexto da blaxploitation, so, ela é cool por ser mulher e, pardon me, por ser uma mulher negra... Deviam fazer isso com uma mulher, fazer as pessoas se esquecerem de que ela é uma mulher vencendo sua suposta vulnerabilidade ou fraqueza, o que é exatamente o oposto do que o feminismo quer... Deviam fazer isso com uma mulher...
Q: I see...
N mexe no cabelo.
Q: Ei, quer escrever uma coisa comigo?