Million Dollar Kiss: 12/01/2008 - 01/01/2009
The Ego's Last Stand.

31.12.08

Sem revisão

Não quero dizer que cada ano fica mais difícil do que o outro porque não é verdade. Mas há uns cinco anos que todos os anos são difíceis. Esse foi o ano que minha mãe teve câncer. Não falei nada por aqui porque não cabia. Não falei nada com quase ninguém na vida real também. Na faculdade, ninguém sabia. Só contei à dois ou três amigos mais íntimos e porque precisei explicar algum choro fácil ou uma patada qualquer. Ela removeu um tumor na bochecha no retrasado, mas nesse ano a coisa se espalhou e ela precisou fazer quimioterapia. Imaginei um apocalipse emocional pois meu relacionamento com a minha mãe já era complicado quando ela estava saudável. Nem posso começar a explicar pra quem não conhece a situação, mas acabou não sendo tão horrível, tão devastador quanto eu pensava. Mas claro, entrei em depressão profunda, engordei horrores, quis parar com todas as poucas coisas que fazia na minha vida. Sei lá quando, resolvi que já era o suficiente, procurei ajuda, comecei uma dieta horrorosa e passei a fazer tudo certinho pelo prazer de fazer certinho. Enquanto eu estava muito cansada pra fazer qualquer coisa, havia uma voz na minha cabeça dizendo "hey, arruma a cama, você vai se sentir melhor com isso". E pra todas tarefinhas que eu precisava fazer, essa voz aparecia e eu realmente me sentia melhor. Perdi dezesseis quilos. Troquei todo meu guarda-roupa. Minha mãe está fora de perigo. Ela ainda fuma quantidades horríveis e acho que nunca vai parar, mas o corpo dela reagiu, disposto a se consertar. Estou tão cansada, mas consigo reconhecer que tudo está melhorando. Eu só precisava que melhorasse um pouco mais. Se possível. Mas eu sei, eu sei que é pedir demais agora. Ano que vem vai ser caos. Sem dúvida alguma. Mas não quero falar sobre isso ainda.

26.12.08

Daymare

Trecho de um dos filmes mais fraquinhos do Mel Brooks que, coincidemente, é melhor que toda a cinematografia brasileira:

10.12.08

A sinceridade das ervilhas

Se estou aqui, tem de haver alguém no mundo que concorda comigo em tudo, até nas opiniões mais insignificantes e pensa exatamente como eu. Digo, a minha existência é tão pouco provável - sobre a sua, eu já não sei - que tem de haver em algum lugar longínquo e absurdo como o Brasil alguém exatamente como eu. Poucas coisas no mundo são piores do que solidão - cheeseburguer que não pára quieto na mão, talvez - e não há nada mais reconfortante, nada mais fabuloso e sexy do que encontrar alguém que é como você. Assim, exatamente.
Claro, claro. Estou ignorando o fato de que, comprovadamente, duas pessoas iguais confinadas no mesmo recinto acabariam mortas. Eu sei disso. Mas, mesmo assim. Não há nada melhor do que alguém que entenda os seus defeitos, seus gostos e mesmo as suas memórias. Porque explicar, convenhamos, é muito chato e há algo de divinamente especial quando você olha para uma pessoa e ela entende o que você acabou de falar, sem falar nada. Falar é estafante.
Os momentos mais melancólicos da minha vida - imagino meu espírito como um Frank Sinatra, tarde da noite, com o paletó jogado sobre as costas, os dedos na testa e a cadeira invertida - foram aqueles em que me senti sozinha ao defender ou explicar algo. Como, por exemplo, me deparei com um grupo de pessoas que detestava ervilhas. Oh, meu Deus, as injustiças desse mundo! E conto, tentando conquistar simpatia, que quando eu era pequena, eu pegava um banquinho pra abrir um armário lá no alto e pegar uma lata de ervilha que eu despejava num prato e comia de colheradas. Que aquelas tardes com as minhas ervilhas foram as tardes mais genuínas e quentinhas da minha infância... A dor! Como dizem que o milho é superior à ervilha? O milho nem consegue ser anatômico, perfeitamente redondo. A ervilha é macia, sincera.
Se no Brasil há uma Ieda de 22 anos que ama ervilhas e odeia Glauber Rocha, tem de haver alguém, na Antuérpia, talvez, que, exatamente como eu, sabe que o Tarantino assistiu sim The Bride Wore Black. Olá.

4.12.08

Densha Otoko

Perdi 15kgs. Estou muito contente, é claro. Mas sou um bicho tão terrível, tão teimoso, que ao invés de aproveitar a coisa toda e mudar completamente de personalidade - ah, os ex-gordos saltitantes, como odeio vocês - sou tomada por acessos de raiva pelos motivos mais bobos.
Sempre tive acessos de raiva pelos motivos mais bobos. Agora, porém, sinto que a coisa toda se agravou. Talvez por não poder comer de tudo, fico ainda mais mal-humorada, mais do que já sou geneticamente, mas achei que isso se suavizaria com um pouco de senso de realização, auto-estima, etc.. Mentira.
Eu estou feliz por poder comprar roupas com mais facilidade, mas, às vezes, fico tão absorvida pelo ódio aleatório do dia-a-dia que meus olhos chegam a lacrimejar. E tudo porque a costureira fez um trabalho meio porco apertando umas calças minhas* ou a babaca da menina do metrô que não aprendeu a andar com outras pessoas ao redor.
Acho que as pessoas engordam porque todo mundo acha que merece um sorvete. Poxa vida, estou tão cansada, estudei/trabalhei tanto, lidei com tanta gente cretina, eu mereço um chocolate. Todo dia, eu mereço um chocolate. Pelo simples esforço de ter aguentado mais um dia. Mas tenho me negado todos esses prêmios gastronômicos.
Comprar roupas novas é um substituto muito pobre para um nhoque, um cheeseburguer perfeito, essas manifestações divinas muito particulares, esses calmantes espirituais.
Tenho medo de ir dormir hoje e acordar, de repente, com 30kgs a mais só na área do quadril - pelo karma que estou acumulando nesse exato momento, pela falta de gratidão. Não é isso, pessoa responsável pelo karma - provavelmente uma bomba de chocolate personificadada, terrível e maravilhosa ao mesmo tempo. Acho que quero dizer para as pessoas aproveitarem os seus chocolates, abraçarem seus sanduíches, seus milkshakes, etc.. Você já disse "eu te amo" para o seu Chandelle hoje?


* Nesse processo todo de emagrecer, todas as calças são temporárias. Tive uma que só me serviu por duas, três semanas e depois já era. Despendioso, mas simpático.