Sem revisão
Não quero dizer que cada ano fica mais difícil do que o outro porque não é verdade. Mas há uns cinco anos que todos os anos são difíceis. Esse foi o ano que minha mãe teve câncer. Não falei nada por aqui porque não cabia. Não falei nada com quase ninguém na vida real também. Na faculdade, ninguém sabia. Só contei à dois ou três amigos mais íntimos e porque precisei explicar algum choro fácil ou uma patada qualquer. Ela removeu um tumor na bochecha no retrasado, mas nesse ano a coisa se espalhou e ela precisou fazer quimioterapia. Imaginei um apocalipse emocional pois meu relacionamento com a minha mãe já era complicado quando ela estava saudável. Nem posso começar a explicar pra quem não conhece a situação, mas acabou não sendo tão horrível, tão devastador quanto eu pensava. Mas claro, entrei em depressão profunda, engordei horrores, quis parar com todas as poucas coisas que fazia na minha vida. Sei lá quando, resolvi que já era o suficiente, procurei ajuda, comecei uma dieta horrorosa e passei a fazer tudo certinho pelo prazer de fazer certinho. Enquanto eu estava muito cansada pra fazer qualquer coisa, havia uma voz na minha cabeça dizendo "hey, arruma a cama, você vai se sentir melhor com isso". E pra todas tarefinhas que eu precisava fazer, essa voz aparecia e eu realmente me sentia melhor. Perdi dezesseis quilos. Troquei todo meu guarda-roupa. Minha mãe está fora de perigo. Ela ainda fuma quantidades horríveis e acho que nunca vai parar, mas o corpo dela reagiu, disposto a se consertar. Estou tão cansada, mas consigo reconhecer que tudo está melhorando. Eu só precisava que melhorasse um pouco mais. Se possível. Mas eu sei, eu sei que é pedir demais agora. Ano que vem vai ser caos. Sem dúvida alguma. Mas não quero falar sobre isso ainda.
