Million Dollar Kiss: 06/01/2008 - 07/01/2008
The Ego's Last Stand.

29.6.08

Sobre Wall-E

Estou em choque desde que vi Wall-E. Não acredito que estragaram um filme potencialmente genial para pregar ambientalismo e criticar o consumismo - sério, não vão vender mil bonequinhos, lancheiras, cadernos, canetas, etc., etc.? Não é ligeiramente hipócrita, condescendente e detestável?
O filme começa tão bem, mas tão bem, que você sente que vai ser um daqueles momentos que você vai se lembrar pra sempre, aquele momento em que você viu um filme muito bom pela primeira vez. E depois, tudo se estraga de forma tão impressionante que me senti enganada e traída por meses e meses de fotos, trailers e clips que não sugeriam nada daquilo.
Não é só pela mensagem, pela atitude imbecil do filme, mas tem um momento de transição bem claro em que tudo que havia de adorável desaparece completamente - como descobrir sua namoradinha beijando seu arquiinimigo ou coisa assim. Você se esquece até das sardinhas dela.
São dois filmes diferentes forçados a conviverem juntos. O primeiro é maravilhoso, romântico e praticamente mudo. Apesar do futuro da Terra, as cores são bonitas, tudo é realista e cheio de detalhes que fazem com que você sinta mesmo como é ser o último robô da terra, tão desesperadamente solitário e tão fofamente apaixonado quando encontra uma companheira. É perfeito. E, então, os humanos aparecem e, Deus... Tudo parece ter sido feito mais porcamente a partir daí, o tempo que levaram elaborando a história, o roteiro - Jesus, por que começam a falar tanto se o filme funcionava tão bem em silêncio? - e até o design das coisas, a aparência mal-feita das pessoas que não condiz em nada com o realismo da primeira parte. E tudo para quê? Para ofender os humanos que Wall-E tanto ama. Não faz sentido.
Wall-E sonha em ser humano, ele coleciona nosso lixo - que ele trata como tesouro, mesmo sendo o consumismo uma coisa abominável de acordo com a segunda metade do filme - ele assiste nossos filmes, ele procura pelo chapéu perfeito para poder dançar, ele quer segurar na "mão" da Eve e, depois, somos gordos detestáveis, preguiçosos e burros que estragaram a Terra. Oh, Jesus, mas que falta de coerência, huh?
Ter visto Wall-E só afirmou meu amor por Brad Bird, Ratatouille, Os Íncriveis, animações extremamente bem pensadas, bem feitas e que são pró-humanas. Apesar de Remy saber do que os humanos são capazes de fazer com os ratos, ele acredita e admira a capacidade humana de criar, por exemplo, sabores incríveis. Apesar dos heróis terem sido mal-tratados, processados e banidos, eles ainda estão dispostos a nos defender - porque nós valhemos a pena, porque nossas famílias valhem a pena, porque existe amor e, assim como existe um Mal, existe um Bem que deve ser defendido.
Agora, o que eu gostaria de mostrar aos meus filhos? Que somos potencialmente bons, que podemos fazer o melhor se tentarmos ou que somos imprestáveis horríveis cuja salvação depende de um robô? Além disso, pra que ir ao cinema para ser ofendida? Por que fazer isso com uma animação infantil se o Al Gore ainda está vivo e sendo Al Gore todos os dias? Por que estragar uma premissa tão boa, tão criativa, com mensagens tão abomináveis? Uma pena. De verdade.

Não estou sozinha:

“Wall-E,” which is set 800 years in the future, has two settings: one is a bleak post-apocalypse of garbage on an Earth devoid of any humans. And that’s the audience-friendly part. The other half of the film (which is the year’s most heavily promoted release according to Variety, with a $50 million or so ad campaign) supposes that the human race of the future will become a flabby mass of peabrained idiots who are literally too fat to walk. Instead they zip around in flying wheelchairs surfing the Web, chatting on phone lines and stuffing their faces with food meant to be sucked down like milkshakes while unquestioningly taking orders from the master corporation that controls all aspects of their existence. I’m trying to think of a major Disney cartoon feature that was anywhere near as dark or cynical as this. I’m coming up blank. I’m also not sure I’ve ever seen a major corporation spend so much money to issue an insult to its customers. Those potato-y people of the future seemed uncomfortably close to paying guests of Walt Disney World, passively absorbing entertainment in a sterile, climate-controlled, completely artificial wonderland that profits from everything they eat, see or do.” LIBERTAS » Blog Archive » The Worldview of WALL*E


“When EVE’s ship comes to claim her, Wall*E hitches a ride into space - he won’t let her get away. The film remains amazing through this point, finding a strange beauty in Wall*E’s ruined world, constructing a character from a speechless robot, and going into space seems to be the exciting next step. Until Wall*E actually gets there. It seems like Stanton lost his nerve somewhere along the way. The spaceship Wall*E comes to is filled with humans, who have evolved over 700 years into cartoon characters. Having live action humans in the earlier scenes felt so brave. The spaceship interiors feel so dull after the tarnished beauty of the Earth scenes. The introduction of a storyline with talking humans feels so boring after the glory of the ‘silent’ first act.” REVIEW: WALL*E (DEVIN’S TAKE)


“Have we lost Pixar? Have we lost the wonderful studio who brought us The Incredibles and Ratatouille to Bush Derangement Syndrome? Here you have a winning streak going back ten-years, enormous amounts of public goodwill, equal amounts of credibility as serious storytellers, and they stop things cold, yanking you out of the story with the liberal nonsense. Quite a disappointment.” Dirty Harry’s Place… » DHP Review: Wall-E

7.6.08

Gah

Para quem não sabe, sou estudante de cinema. Não comento muito porque falar no assunto invariavelmente atrai questões de desemprego, o que vou fazer quando a faculdade acabar, falta de qualidade e perspectiva na produção nacional, colegas detestáveis que deveriam estar fazendo publicidade, angústia constante, desespero, etc. e eu tento não ser uma pessoa muito deprimida. Para resumir, não é algo que eu planejei fazer, eu não sei como vou pagar as contas, como vou sustentar filhos ou mesmo se vou conseguir fazer filmes mais ou menos profissionalmente, foi só uma conclusão óbvia para mim, para o tipo de pessoa que sou e das coisas que amo, foi uma escolha maravilhosa e terrivelmente inevitável. Eu não sofreria com essas questões se eu tivesse optado por arquitetura ou direito, mas eu também jamais me divertiria tanto quanto me divirto só de assistir um filme e realmente entendê-lo.
Enfim, fui ver o filme de uma professora minha. Ela me deu aula por dois anos, nunca fomos as respectivas favoritas. Mesmo assim, ela conseguiu fazer seu primeiro longa, com estréia em circuito comercial e tudo. Foi com o dinheiro do governo, algo altamente discutível, mas ela fez um filme, ela tem algo para colocar na página do imdb e vai ficar lá por toda a vida. Conhecer alguém que fez um filme que passou no cinema é meio mágico, como conhecer um unicórnio ou algo do tipo. Dá esperanças de que seja possível fazer alguma coisa. Jesus, o filme é horrível.
Gosto de pensar que as pessoas que me dão aula estão nessa posição porque sabem de alguma coisa que eu não sei - uma loucura, né - mas agora eu tenho uma evidência concreta de que, por dois anos, eu deveria estar dando aulas para ela e não o contrário. Não que ela fosse conseguir aprender alguma coisa, sendo uma pessoa da capacidade dela, mas só para respeitar uma certa hierarquia anímica, sabe. Ainda não sei se me arrependi de ver o filme, gastei tempo e dinheiro que jamais recuperarei, mas agora sei que posso desprezar a maioria dos meus professores com mais confiança e convicção.
Atores ruins e diálogos horríveis são elementos óbvios de qualquer produção nacional, até porque não tem ator de cinema no Brasil e uma coisa invariavelmente depende da outra, mas não há motivo pra escrever um roteiro tão mal assim e filmar tão de qualquer jeito. Tenho certeza absoluta de que não foi falta de recurso. Teimam em achar que o cinema brasileiro seria sensacional se recebesse mais dinheiro, da mesma forma que acham que o público vai magicamente aparecer se a distribuição nas salas de cinema fosse melhor, mas nunca sabem como resolver a falta de talento.
Vendo o filme, dá pra perceber que não houve muito planejamento, que não ensaiaram movimentos de câmera ou qualquer coisa. Talvez com a desculpa de que assim seria mais natural, mais criativo, mas é óbvio que o resultado é um lixo. Nunca entendi a abominação que cineastas brasileiros sentem pelo tripé, por planos estáveis, enquadrados e bem filmados. Acho que um colega meu disse que assim "parece de propósito" e "tendencioso" - mas desde quando que filmes são acidentes sem supervisão? De que adianta ter todo o dinheiro do mundo se não há como resolver mau gosto?
Tudo em um filme deveria ser de propósito, das cores dos objetos em cena à forma que uma atriz coloca as mãos sobre os joelhos. Gosto tanto do Tarantino porque absolutamente tudo tem um motivo para estar lá e tudo contribui para a composição do universo do filme, quadros nas paredes, roupas de cama, utensílios domésticos, tudo. No cinema brasileiro, as coisas tem de ser propositalmente acidentais, com câmera na mão e nenhum cuidado com coisa nenhuma - e quase sempre são acidentes horríveis.
No Brasil, há um desprezo por qualquer um que pensa, estuda ou trabalha muito. É uma faux pas ser esforçado, se preocupar. Uma pessoa assim é sempre tachada de controladora, chata, "tendenciosa". Como ser profissional com todos esses coqueiros e samambaias e Caetanos Velosos ao redor? Quem consegue pensar com esse calor? Senta aí, relaxa.