Million Dollar Kiss: 07/01/2005 - 08/01/2005
The Ego's Last Stand.

29.7.05

I used to love her but I had to kill her

Eu achei um par de luvas verdes ontem e não provei, porque não se prova luvas, até chegar em casa e descobrir um elástico para cabelo dentro de uma das mãos. Minha primeira reação foi a de alegria de uma criança quando ganha qualquer coisa que seja - bem, uma vez, minha mãe disse que tinha me trazido um presente mas era um pente de cabelo e eu não gostei nada, mas ela não devia ter usado o termo "presente" tão deliberadamente; você pode oferecer uma caxinha de suco a uma criança e ela ficará toda contente mas não diga antes que tem um "presente" - logo depois eu fiz "ewww", porque me lembrei que aquilo devia ter tocado o cabelo de uma desconhecida, talvez, deus me livre, desconhecido e sabe-se lá se tal é lavado, livre de piolhos e etc.
Toda vez que uma criança pega piolho, ela amadurece um pouco, fica com mais nojinho das coisas e medo de ficar careca. Medo de ficar careca é a coisa mais adulta que pode existir - peguei cuidadosamente o elástico para cabelo estranho e joguei no lixo. Sempre me questionei em que momentos algo aconteceu e eu cresci um pouco. Estou assistindo a um filme coreano agora. Criança não assiste filme coreano. Toda criança cresce quando percebe que não pode ficar com as coisas que acha na rua e que o melhor a fazer é simplesmente deixar lá, porque alguém pode estar procurando, ou numa seção de achados e perdidos, porque aquilo é de alguém e de repente, você se importa. Da mesma forma, quando uma criança briga com outra, mas tenta ser simpática e civilizada, por cumprimentando-a e se reservando a não comentar mal dela pelos corredores da escola, ela cresceu demais.
Romper quando se é criança é detestar profundamente a pessoa, os amiguinhos, a mãe dela, e não socializar. A não ser que você esteja numa empresa, socializar é pra perdedor. Ao contrário de quando adolescente (que, ao contrário da infância, pouca coisa se salva) eu acredito que aquela nostalgia Casimiro de Abreu é cretinice, mas as pessoas não sabem romper e odiar totalmente, quando adultas - simplesmente porque elas se tornam as mais civilizadas possíveis, quando deveriam ser irracionais e insuportáveis. Não digo que deveriam ser irracionais e insuportáveis o tempo todo, mas são crianças que sabem bem como ter rancor e como agir em situações negativas, que não se deve verter a uma positiva, mas deixá-la ainda mais negativa. Colar chiclete no cabelo dela.
Pra uma criança, quando ela foi insultada, é o fim, e o fim é o fim, e não há como repreender essa percepção das coisas. Principalmente porque quando as pessoas começam a namorar que começam a se humilhar é que essa coisa de ficar brabinha, realmente brabinha é esquecida, mas também porque cresceram demais - eu nunca. Romper e socializar com os ex e as atuais dos exs é doentio. A forma correta de romper é odiar para sempre, a pessoa e tudo relacionado a ela, fazer voodu, desejar que ele ou ela fique careca, cara de mamão, etc.

26.7.05

Contos do Pato

O Pato da Morte

O Pato da Morte era o pato mais procurado pelas autoridades do lado oeste do rio Mississipi, alcançando uma recompensa de então vinte mil dólares na data de sua prematura morte, nunca recebida por nenhum homem. Foi ele o primeiro a conceber um atentado a uma diligência dos Correios dos Estados Unidos da América, conquistando fortuna e fama como nenhum fora-da-lei. Abandonado no nascimento pelos pais naturais, Lou Ann e Frank Morton, chocados com a recém-nascida aberração e sua aparência não-humana, foi criado por índios que o acharam enrolado em panos num leito de um lago. Se tornara um dos patos mais cruéis da História.
Durante um de seus assaltos acompanhado de seu temível bando de quatro índios mestiços, mercenários e acrobatas, Caminha Com A Chuva, Montanha Selvagem, Urso Careca e Águia Cega, o Pato da Morte se apaixonou pela jovem viúva Jill McBain. Ele nunca deixava duas testemunhas de seus crimes vivas, mas apenas uma, para contar aos outros de seus destemidos atos, e assim optou por matar um menino de dez anos de idade para preservá-la. Jill, aterrorizada, tentou fugir pelo deserto apenas para ser capturada não muito tempo depois. Se debatendo sob seu pequenino corpo cheio de cicatrizes e com uma força improvável, ela disse que nunca o beijaria e se casaria com ele, quando o Pato lhe mostrou suas riquezas e as possibilidades a convenceram do contrário.
No sétimo dia de casamento, Jill, após revistar a casa toda nas ausências do Pato, descobriu a reserva de todos os ganhos desde o primeiro crime do Pato da Morte, escondidos numa parede falsa protegida por um crucifixo. Ela pegou uma parte, considerável, mas que nunca teria sua ausência notada pela quantidade total que lá se encontrava, contratou, então, Olhos de Anjo para matar o Pato e seu bando e agiu normalmente pelos próximos dias.
Olhos de Anjo, um dos mais temíveis assassinos de aluguel de sua época, não devolveu o dinheiro quando o Pato e todo o seu bando foram acidentalmente mortos em um descarrilhamento durante um assalto a uma comitiva. O pior descarrilhamento da História.

25.7.05

Natalie Wood, Natalie Wood, Natalie Wood

Meu motivo principal para evitar contato com gente normal, seja qual for a circunstância, é porque elas gostam de atualidades e eu gosto de coisas, assim, velhinhas. Aconteceu, algumas vezes, de eu passar mal andando numa rua e perceber com horror que eu precisaria da ajuda de alguma daquelas pessoas - elas ajudam, elas se preocupam, elas até perdem a novela. Mas, em ocasiões mais normais, ao invés de me oferecerem um lanchinho naquela rotisserie fofinha logo ali (onde gosto muito de passar mal) comentariam sobre "e esse x", sendo x algum escândalo, variando entre y e z, que são dois políticos que sempre me esqueço dos cargos.


Regina Duarte, "Eu avisei"

Muitos profissionais da área artística e intelectual se preocupam com atualidades e são todos engajadinhos e entojadinhos e, por isso, não os leio ou consumo, mesmo se não forem tão ruinzinhos assim. Não exatamente por serem comunistas - mas isso também - mas por todo artista que se preocupa com "para onde o mundo caminha" e que, geralmente, é comunista. The thing is, profissionais de verdade, ao contrário do que o ensino acadêmico diz com marijuana nos bolsos e todo melecado de cheetos, não se importam com o que acontece ou com o que vai acontecer com cidades, ou países inteiros. Bem, talvez Veneza. Mas digo, se preocupam se O Grito é roubado - organizam um sindicato e tudo para perseguir os criminosos, contratam mendigos para vigiarem as ruas - mas não com seja lá o quê essa gente se preocupa. Eu gosto de coisas velhinhas e queria comentar no elevador "E essa Barbara Steele, hein?" mas a verdade é que artistas não devem se importar com nada.
"Fuck it", há de dizer cada escritor, pintor, músico e escultor, sob uma guerra que é problema deles - e essas mesmas pessoas normais que ajudam quando temos uma tontura, e simplesmente precisamos de uma bomba de chocolate, irão nos arrastar para um alçapão ou algo enquanto nos debatemos querendo voltar pra buscar as nossas anotações. The kindness of strangers. A única responsabilidade do voto é salvar as pessoas que não votaram caso a sua escolha tenha sido totalmente equivocada. Intelectuais não votam, nem falam sobre (por isso, preciso ser breve) eles fazem guarda no Louvre ou passeatas para impedir um director´s cut.

Ju-On

Da antiga lenda popular, do fantasma de uma senhora nipônica que conta pulos de alegria.

Quando lhes contarem algo bom, que não seja bom diretamente a você mas que traga felicidade a outras pessoas, pulem com os dois pés, quão mais alto mais seguro, quarenta e dois bem contados pulos de alegria para que a senhora nipônica lhes poupe. A senhora nipônica conta, onde quer que seja, quando for, cada pulo dado e se são sinceros suficientemente. Se falharem ou ignorarem, ela os segue até a casa e os observa dormir. Quarenta e dois segundos depois que ambos os olhos se fecham em descanso, ela os acorda com as mãos gélidas hermeticamente presas na perna de preferência. Sendo impossível pular então, a senhora nipônica não os deixará até que escolham a própria morte.

21.7.05

Minha idéia Donald Kauffman


Donald Kauffman

Um homem - porque por mais que mulheres existam, as histórias soam mais reais quando os homens são os protagonistas principais - descobre que perdeu a memória de uma semana toda ao perceber que todos os seriados que acompanha fielmente simplesmente pularam um capítulo. Era para ser uma cena do homem assistindo Columbo e se percebendo totalmente desavisado dos últimos acontecimentos, mas me lembrei que Columbo não segue uma ordem e ninguém percebe se perdeu tal capítulo. Enfim, o homem, intrigado e sozinho em casa - trabalha em casa, está de férias ou licença, tem a perna engessada - começa a refazer os próprios passos até achar uma chave-inglesa ensopada de sangue atrás da geladeira, algo nojento e assustador. O homem supostamente matou alguém na semana em que perdeu a memória. Enquanto tenta se lembrar de todos os acontecimentos e o que os levaram a tais, uma mulher mortal, viúva do falecido - nas cenas em que a mulher está presente apenas uma luva preta aparece e seu rosto só é revelado no final - tenta localizá-lo buscando vingança. O homem assiste Seinfeld, Twin Peaks numa noite chuvosa. Você pode ver o homem sentado a frente de uma janela e uma luva preta e uma mecha de cabelo louro aparecendo vagarosamente por detrás do vidro. Eles assistem SNL juntos. A mulher faz pão de queijo no forninho elétrico. Descobrem que a chave-inglesa era coisa da empregada maluca.

20.7.05

Pai Mei

Eu estava, por algum motivo, pensando nas minhas antigas relações com então namorados enquanto, in the other hand, eu pensava no ritual de acasalamento dos gafanhotos. My love diz que não são gafanhatos, que são louva-deus, mas tenho certeza que são gafanhotos porque eu assistia Space Ghost - ou Zorak era um louva-deus? Enfim, não importa. Importa que a fêmea, depois da copulação, arranca a cabeça do macho. I mean, muito antes do aborto, eu com certeza arrancaria a cabeça do responsável pela gravidez indesejada, e toda a coisa de "você arruinou meu corpo, arruinou minha carreira". Eu desejei, mesmo não tendo filhos, ter arrancado as cabeças de todos exs, de ter empalhado, colocado em plaquinhas de madeira com a data de início e fim de namoro e exibido para todas as visitas, orgulhosa. Vê esse aqui? Queria casar. E esse? Tinha manias sexuais esquisitas (e dando risadinhas).
Não existe separação pacífica, pessoas que se tornam amigas depois de um relacionamento são degeneradas - além de não possuirem sentido de coolness; fazer inimigos é legal, imagine ser surpreendido em um restaurante por um ex usando uma capa, um lança-chamas e um corcunda, o/a atual. O único modo de haver uma completa reparação das tristezinhas que ficam é não romper todas as ligações traumaticamente, não se privar de ter contato com a pessoa assim, de repente, mas passar dias com o corpo morto dela na sala-de-estar, inundando e manchando os móveis da vovó com um sangue feliz. Se acostumar aos poucos com a idéia adorável de que a pessoa quando não diretamente relacionada a você, se torna inanimada e morre, naturalmente ou não. Manter o corpo por perto, pelo menos por algum tempo, é uma questão de despedida e balanço sentimental, um ritual muito doce, uma mistura de luto com festa de bon voyage - com novos namorados, no início, eu sempre mantinha um chorinho pelo antigo, tirando a cúpula de um então abajour da sala e revelando a fonte do mau hálito, sorrindo depois quando o abajour é finalmente redecorado e pode funcionar de verdade.
Quando o corpo finalmente começa a ter um aspecto asqueroso, livra-se dele de forma muito mais fácil e desprendida e não se pensa em voltar atrás. O tempo que passa só serve para avançar a decomposição, realmente não se vai querê-lo de volta, e assim pode-se ter uma vida feliz e saudável. Nada conclui uma relação tão definitiva e eficazmente, sem deixar qualquer dúvida que seja, quanto o fedor. Por isso, não existe separação pacífica. Porque a melhor e mais almejada solução para curar feridas - e um relacionamento sem feridas não faz ninguém chorar em um enterro - é a morte do outro. Eu desejei por muito tempo cânceres de próstata, que perdessem as bolas e ganhassem man boobs, quando percebi que a forma mais refinada e difícil, logo louvável, de matar alguém é pela arte letal de causar ciúmes e inveja. Sorrir bem largo de uma outra mesa e alguém do outro lado do restaurante derrubar o rosto morto num prato de, sei lá, lasagna. Ainda não sou capaz disso, mas dizem que o mestre do meu mestre sim e eu não tenho outra intenção que seja menos do que ser Sifu Hideyo, a primeira mestre residente no Brasil a matar um homem apenas com um olhar contente. Dizem que na China, todo mundo consegue.

19.7.05

Contos do Pato

O Pato Malicioso

O Pato Malicioso foi o único pato a se tornar gangster e o gangster mais famoso e impetuoso dos anos quarenta. Era um dos garotos, então muito jovem, de Johnny Colombo "Polainas", quem controlava o contrabando de bebida em Nova Iorque por trás da fachada de uma funerária em mil novecentos e vinte e nove, e, agora, conquistou em sua meia-vida toda rede de cassinos clandestinos, assim como os bordéis, de costa à costa. Brigid "Boca de Veludo" O´Kelly era sua garota, sua garota número um, eu digo, e também responsável por sua morte prematura.
O Pato Malicioso jogava pôquer e fumava charutos, todas as quartas, com seus quatro parceiros, Jimmy "Tulipa da Morte", Larry "O Roedor de Nápoles", Jack "O Major Galopante" e o irlandês Andy "O Côncavo". Brigid preparava lanches e drinques para os garotos quando numa quarta, acidentalmente, usou anchovas não frescas para a pilha de sanduíches. Envenenados, morreram os cinco maiores gangsters de toda História, e assim se deu a trágica morte de "Bronx" Pato Malicioso, deixando todo o controle do submundo para "Boca de Veludo".
Muitos suporam que a então viúva Boca de Veludo não havia sido acometida de um lapso, mas que havia planejado cuidadosamente cada passo. O que se sabe é que Brigid recebeu um seguro de vida, feito em segredo pelo próprio Pato Malicioso, e que nunca se entregou a nenhum outro.

17.7.05

Jejum de Amor

Toda mulher que rompe com Cary Grant parece arranjar um futuro marido (com o qual o casamento não dará certo) em alguma cidade de reputação monótona, além de pretender viver com a sogra. Oklahoma, Albany, Cary Crant ri - e tanto Irene Dunne quanto Rosalind Russell fazem uma carinha assim, envergonhada. You see, é normal, completamente normal haver vergonha municipal, estadual e mesmo em âmbito nacional. Todo cidadão de Tulsa quer sair de Tulsa. E as pessoas de Jersey que têm orgulho de Jersey são as piores pessoas.
You see, assim como eu não acredito que grandes cineastas, ou qualquer outro tipo de pessoa interessante, possam sair de Goshen, Indiana, eu raramente acredito que algo que já tenha cruzado a Avenida Vinte e Três de Maio, ou qualquer outra avenida brasileira, possa valer algo - não é só por ser brasileira, mas por ser terrivelmente real. Às vezes, elas aparecem, mas meu desprezo continua exatamente por não corresponder tanto a realidade (desprezar coisas que são total e verdadeiramente desprezíveis é um hábito vil e cancerígeno).
São boas pessoas, boas pessoas daqui até Jersey, mas há de se ter nojinho delas, porque sim. Sem dúvida, X é talentoso, e boa pessoa, mas me mata quando dá nome às avenidas e ruas na escrita. Avenidas e ruas que realmente existem e que eu possa ter passado realmente por um dia desses. Uma coisa (e problema dos marroquinos) é escrever um conto com um endereço de Marrocos, outra de alguma área do Rio - exatamente pela facilidade de talvez, um dia, passar por lá e ver que as pessoas não parecem interessantes, que odeio tanto X. X, assim, acaba com todas as chances de imaginar que aquilo seja uma ficção e uma ficção boa, isto é, que não se passa no Brasil, porque não podem sair bons personagens da beira do Paraíba ou de qualquer lugar minimamente familiar. Por familiar, entendam a minha vizinha de cima. Nenhuma literatura pode vir dela ou de qualquer referência que minha vizinha conheça. Se minha vizinha sabe as indicações para chegar na rua Y, faço de tudo pra errar o caminho. E se ela usa roupa da marca Y, Deus, isso nunca deveria ser registrado.

12.7.05

Miss Mignon

"some are born great, some achieve greatness, some have greatness thrust upon them
...and then there are others."

Miss Mignon nasceu de um espirro quando sua mãe nem mesmo sabia que estava grávida e enquanto dormia, a mãe, Miss Mignon rolou pela cama até o chão, encontrando antes os chinelos que a salvaram da queda, no quarto escuro, à noite. Foi encontrada três dias depois, agarrada na coleira do cachorro, no Pet Shop, confundida com uma pulga.
Eles levaram Miss Mignon a todos especialistas da área, equipados com minúsculos estetoscópios e lupas e palitos de sorvete que podiam entrar em sua boca sem serem maiores que ela, e nenhum médico podia explicar tal evento do ananismo vindo de pais, vindo de avós e bisavós, perfeitamente saudáveis. Digo, havia um tio de um metro e cinqüenta que se curvava imitando um anão num circo decadente, mas nada era comparável. Na verdade, não era ananismo de forma nenhuma. A relação de seus membros para com o tronco e a cabeça era perfeitamente harmoniosa e Mini, Miss Mignon, era uma perfeita réplica de um ser humano saudável, mas em miniatura. Seu caso foi chamado de pequenismo e era algo completamente novo.
Miss Mignon morava em uma gaveta, perto do chão, para evitar quedas e tomava banho em um pires. Comia uma ervilha, às vezes, milho ou arroz, por dia e uma única gota de chá ou água. Um dia, ela encontrou um pedaço de chocolate no sofá, no qual foi colocada sobre uma única vez, o escondeu, guardou e comeu compulsivamente todos os dias, e durou um mês todo.
Miss Mignon tinha irmãos. Gêmeos. Eles tinham dois anos e um metro todo cada. Miss Mignon tinha dois centímetros e era constantemente perturbada pelos irmãos, ignoradas pelos pais.
Miss Mignon decidiu fugir de casa e ir morar na cozinha. Ela decidiu viver em um armário alto que ela, usando um fio-dental, miraculosamente escalou. Depois, ouvindo a mãe se aproximar, decidiu se esconder dentro de um jarro de biscoitos. Miss Mignon fez silêncio, mesmo sendo impossível ouvi-la e dormiu sobre vinte e três biscoitos de chocolate.
À noite, pedaços de chocolate começaram a incomodá-la. Ela descobriu que os biscoitos se mexiam, e jogavam chocolate nela. Os biscoitos não gostavam da presença de Miss Mignon. Eles não gostavam de nenhum humano, na verdade, porque viram muitos parentes e amigos sendo mortos por eles. Eles decidiram comer Miss Mignon. Miss Mignon, quando atacada, espetou seus olhos vazios que davam espaço à de cobertura de morango, com um palito de dente que carregava como um cajado, e fugiu. Miss Mignon escapou pela bancada da pia e foi seguida pelos biscoitos.
Miss Mignon nunca nadara antes. Ela tomava banhos em pires muitos rasos e nunca teve a sensação de estar completamente imersa, a não ser quando estava dentro de sua mãe e perdida no pêlo do cachorro. Mesmo assim, ela escalou uma cesta de frutas e assim, entrou pelo buraco cortado pela tesoura logo ao lado, dentro de uma caixa de leite. Todos os vinte e três biscoitos se jogaram no leite e morreram instantaneamente, afogados. Miss Mignon descobriu que podia respirar leite e passou a morar lá, vez ou outra lutando para não cair no cereal. Ninguém notou a presença ou a falta de Mini.
Quando a família saía toda, Mini ensinava o cachorro um caminho no mapa do pai, andando ela mesma sobre as linhas, todos os dias. Quando achou que ele estava pronto, embalou alguns pedaços de queijo e preparou a fuga do cão durante a noite. Miss Mignon mora agora numa fábrica de chocolate, respeitada por todos os funcionários que a deixam gentilmente nadar nas caldeiras de leite todo dia. O cachorro mora com o segurança da fábrica agora.
Miss Mignon conheceu médicos do mundo todo, e se tornou uma. Tem ela a teoria de que seu próprio fenônemo é causado por hábitos pequenos de vida.

11.7.05

Da maravilhosa culinária zumbi

Aoi Tada é a japonesa que nunca vi o rosto e queria, pelo menos, lamber todos os dedinhos da mão e dar uma lambidinha na pontinha do nariz. Sem interesse sexual algum eu o faria, eu dificilmente tenho interesse sexual, meu interesse mais básico e inegável é culinária.
O que há é a necessidade - e não há necessidade-necessidade em sexo, a não ser que lhe falte perspectiva - e prazer em avaliar apresentação, aroma, cor, textura e gosto. Digestão.
Aoi Tada tem gostinho de alcaçuz e cai bem, como se não fosse nada, como se fosse sempre muito pouco, eu imagino. Encher um carrinho de Aoi Tada, levar todo o estoque do mercado, encher o armário.
Nenhuma genitália é tão bonitinha, logo, apetitosa quanto Aoi Tada. Verificar se o cérebro está rosadinho, se o nariz está gelado, a boca vermelhinha, colorida. Ver se é fresco. Pôr temperinhos e ervinhas.
Aoi Tada dividida em oito pratinhos coloridinhos, decorados com calda de chocolate e folhinha de hortelã. Aoi Tada quentinha, macia.
Sem ciúmes, prova, pega do meu prato. Experimenta o dedinho, a batata da perna. Batatas da perna de Aoi Tada com brócolis gratinada com queijinhos. Tomate seco. Meu preferido.
Sexo é acaso, incutido no convite de jantar ou não. A diferença é que não me ocorre prazer algum em escrever sobre sexo como me ocorre em escrevendo Aoi Tada. "Aoi Tada num potinho", yum yum.

The fresh prince of Bel-Air


Presidente Lula

Tenho orgulho de não saber como é a voz de tal deputado, senador ou líder de não sei o quê. Se fala fininho, se é fanho, gagueja, não faço idéia. Vez ou outra, me atrapalho com alguns dos rostos. Meu maior desafio: Relacionar as feições aos nomes de, em cinco segundos: Ministro da Cultura, Djavan, Num Sei Que Nascimento, Mr. Bojangles, P. Diddy.
Meu orgulho maior é não ser capaz, nem mesmo para salvar a minha própria vida, de reconhecer as vozes deles, tampouco os rostos. Olho roxo? Pra mim, o abuso doméstico é terrível, terrível. Sinto estranheza quando alguém sabe o nome de todo mundo e acompanha e lê e escreve sobre. É muito obscuro. Vivemos num mundo de possibilidades fartas, por mais que existam pessoas que escolhem estudar os efeitos dos coliformes fecais, há sempre a escolha; arte renascentista ou coliforme fecal, Marilyn Monroe ou política brasileira.
Imagine o horror estrangeiro, as pessoas que são, mais ou menos, obrigadas a entender a política e a economia do país da Banda Eva. Mas não só, imagine, nos tempos livres, por puro prazer mesmo, Condi Rice, de havaianas, levando o polegar à boca depois que o Presidente passa e trupica numa cadeira, "xi, bebeu".
Se interessar por política brasileira, além dos limites da obrigação profissional, é revelar-se muito menos ocupado do que se imagina, além de portador de mau gosto, ou simplesmente ser weirdo. É como um Grissom interessado em moscas tsé-tsé, mas sem a coolness. De havaianas.

8.7.05

Boprah

Eu estava vendo Gigli, aquele pior filme da história, com o infame Bennifer, tentando, well, me divertir, mas, primordialmente, descobrir o que faz um filme ruim ser terrível e consegui. Sem falar nas piores idéias que um roteirista pode ter, há a feiúra e esse é o princípio básico de um filme ruim.
Ben Affleck, que não é muito bonito e não fica bonito imitando Robert DeNiro, vai até a casa da mãe em certa cena, e precisa dar, e dá, uma injeção de sei lá o quê nela, e eles precisam dar um close daquele derrière velho e gordo e enrugado e, claro, the cherry on top, usando um fio dental pink - concluí que o que caracteriza um filme ruim são cenas feias, falta de beleza, mas não só falta de beleza estética, mas beleza de idéia, beleza de espírito - pessoa boa não filma, sequer pensa em filmar aquilo. Algo, a índole, o bom caráter, a impede. "Não, isso não," e nenhum bom escritor ou diretor faz um filme sem pensar no leitor ou espectador. Bons anfitriões se preocupam com os ouvidos, os olhos, o bem-estar dos hóspedes. Bunda velha, não.
A idéia de 21 Grams é feia, a idéia de The Hours é feia, feia como Virginia Woolf - aliás, ela não era tão feia assim, o filme que a quis tão mais feia e desajeitada. You see, a realidade já não é boa e um filme que seja realista já fracassa desde o primeiro "Meryl Streep" que apareça. Imagine um filme que piore as coisas, Naomi Watts com dentes podres, não, não.
Hiper-realidade e expressionismo, ou seja, "improbabilidade" ou exagero, que são minhas coisas favoritas no mundo todo sem contar meus cachorrinhos, só são das boas quando cabe num gibi ou num mangá, quando é tão colorido que toda criança quer agarrar, mexer e levar pra casa. Carrego o action figure da Uma Thurman com o uniforme do Bruce Lee na minha mochilinha de lá pra cá, o tempo todo, fico toda suja de sangue de groselha, adoro, mas nunca, nunca uma Juliane Moore sem maquiagem e chorando por seja lá o que ela chora. Chora tanto, já nem sei.