Million Dollar Kiss: 09/01/2005 - 10/01/2005
The Ego's Last Stand.

29.9.05

Because you can read, and we have a website

Eu pensei em sub-dividividivir o blooog em não uma ou duas, mas três modalidalidades pára-olímpicas, sendo, egoshite, o get real flix e o fictionshite; egoshite, por que por que por que por que eeee mais que eu queira engolir serras elétricas antes de escrever algo extremamente pessoal e íntimo e vergonhoso, acontece, como irritações e manchas esquisitas pelo corpo que aparecem porque têm vontade, get real flix, coisas não diretamente relacionadas a mim mas coisas reais, como acontecimentos e pessoas e blogs n´shit e eu falando mal de acontecimentos e pessoas e blogs n´shit, e fictionshite, para os mais adipososososs contos baseados em fatos reais que coloco aqui desde o primeiro, ou segundo, ou terceiro dia.
Por mim, mas não pela minha obsessão - e quão estúpido pode ser ter obsessão relacionada a disposição das coisas em um blog? Muita - eu simplesmente postaria coisas sem critério algum. Por mim, teria espaço pré-determinado para as músicas, os rascunhos do meu futuro livro de bons modos, minhas fotografias de escritores nus e em poses alcoólicas e libididibinosas, e coisas de toda sorte. Nonsenseshite:

Estou pensando em cortar os dedos das minhas luvas pretas - tenho outra verde e outra vermelha - pra poder usar enquanto eu digito e poder digitar bem, coisa que não consigo muito nem mesmo sem luvas, mas tenho medo de estragar as luvas e tenho dó de estragar luvas. Tenho mais dó de luvas do que de qualquer outra coisa no mundo, muito mais do que calças ou camisetas. Se todas as Guerras do mundo e da história envolvessem a tortura e o genocídio de luvas inocentes eu choraria por toda a existência. Fora que se eu cortasse os dedos seria algo forçosamente cinematógrafo dos anos 80 - polainas são meias de pés cortados - ou Stomp e eu odeio o Stomp, you know, só porque todo mundo gosta, especialmente gerentes de marketing.

Mas não é assim que todo um blog ou mesmo um único post funciona e eu certamente não teria disposição para dividir malemolemolentemente. Egoshite, get real flix e fictionshite são os três elementos primordiais de um bom post - a ciência é a dosagem - e eu teria problemas em dividir bem e eu sempre quero dividir bem. Um get real flix:

Se, de fato, os filmes oferecessem tudo o que você quis durante a sessão - mais respostas, mais perguntas ou toques de realidade - você estaria reclamando o tempo perdido em que viu Dirty Harry dando voltas no quarteirão procurando por vaga, pelo homem fantasiado de urso logo atrás do Clint Eastwood e pelos flashbacks mostrando como a mãe de Dirty Harry o incentivava ao sobre-peso e, sim, que Dirty Harry era gordinho até uns quinze anos de idade quando apanhou dos bullies da escola e meditando dentro de um vaso sanitário resolveu fazer musculação.
Não há motivo algum para um filme realmente querer agradar você, assim como todas as outras pessoas. Se realmente precisar culpar alguém além de você mesmo pelo fracasso de um filme, porque não culpa sua imaginação? Um filme bom - porque existem, de fato, filmes ruins e no caso desses é só imaginar que nunca os viu - não acontece inteiramente na tela e precisa de mínima resposta neurológica, cardíaca ou digestiva, como todas as outras pessoas. Por que só o filme deve dar alguma coisa e por que dar alguma coisa a você? Morons.

Na maior parte do tempo, me sinto frustrada por nunca conseguir levar minhas intenções e pretensa-doenças e nerdices inteiramente à sério, geralmente, por causa de preguiça. Sou assim, muito criteriosa e muito preguiçosa, o que faz de mim mais ou menos como uma pessoa normal, por mais que eu odeie a idéia.

Não existe essa coisa de querer que um livro seja mais longo. Você pode querer saber um pouco mais dos personagens e do que aconteceu e etc, mas você estaria satisfeito com um telefonema da prima do personagem contando que ele casou e que teve dois filhos com uma ruiva que você não conhece. Por mais que um livro seja bom, você espera que ele acabe logo, vê quantas páginas e quanto tempo deve demorar - como se não sobrasse tempo - simplesmente porque é o fim e um livro bom não pode decair mais ou tirar mais tempo ou mais conta de luz quando chega ao fim.

Pensei em terminar com o blog, como pessoas bobinhas fazem, sem falar nada até porque nunca seria algo muito premeditado e é sempre bom possibilibilibitar as possibililibilidades e deixar as coisas em suspense. Ai, que frio.

Comi travessas de quindins. Bom, não travessas mas dois bons pedaços e dois brigadeiros.

28.9.05

Garotas da Biblioteca Sem Fim


Da esquerda para a direita, Campos de Carvalho (meias verdes), G. K. Chesterton (meias cinzas) e Albert Camus dormindo no chão.

Por agora, não adianta querer valorizar a beleza interior quando falta beleza exterior - porque pessoas feias são todas feias, assim como pessoas bonitas são todas bonitas, cada mancha, marca ou dedo extra, assim como ninguém que tenha um nariz desajeitadamente esquisito possa ser fiel, enquanto um nariz simetricamente volumoso revela uma alma bondosa, etc.
Enquanto não somos apropriadamente separados pelo Grande Dedo, enquanto não morremos todos - um corpo vivo é uma mistura do bom e do mau, sendo mundanamente impossível ser completamente bom ou mau, porque os órgãos tendem a se compensar, e quando se é morto, geralmente, se é uma coisa só - viveremos entre pessoas mais ou menos bonitas ou mais ou menos feias (e só através de mim, da minha acurada e única visão, você vai poder saber com certeza se esta pessoa tem uma boa estrutura óssea, o que certamente indica honestidade).
Quando entro numa sala absurdamente cheia de pessoas todas bonitas, das almas mais sedosas, o que não me lembro de fazer muito, dou um soco na pessoa mais próxima e espero ficar roxo e feio - se bem que pessoas bonitas sempre conseguem, de alguma forma, hematomas bonitos - para garantir a mim mesma que eu ainda estou viva e que ainda posso adiar as coisas.


Oscar Wilde e Anthony Burgess

Um dia, todas as pessoas de "beleza interior" ou verdadeira beleza estarão em plena beleza, fazendo coisas de gente bonita no Paraíso enquanto pessoas mesmo que já plenamente feias viverão numa plenitude de feiúra ainda maior. Enquanto não somos, todos os que merecemos, selecionados para o spa eterno, é importante reconhecer que feiúra é sinal de um eterno mau caráter independente de cosmética, de espiríto coxo, de escrita feia, de jeito feio de abrir uma garrafa, ou até um jeito feio de fugir de uma discussão and so on, mas let it bleed.
Por mais que ainda estejamos todos desordenados, não catalogados, não tente em vida deixar pessoas obviamente relacionadas ao enxofre mais bonitas do que jamais poderão ser, não tente salvá-las por tentando ensinar que cor vai com que cor e qual filosofia ou escritor, pois nosso suor ainda vivo deturpa o maravilhoso e nobre brilho de nossas lindas e bondosas têmporas tentando conquistar o impossível.
Não há esforço no Paraíso, logo, ninguém se cansa dessa forma e nenhum cabelo se desarruma despropositadamente - e quando acontece, propositalmente, é a coisa mais linda do mundo. As garotas da biblioteca sem fim - são todas meninas, uma vez que se alcança a beleza eterna, porque agradam muito mais esteticamente - podem jogar água no rosto para fingir suor, como se faz no cinema ou na tevê, mas o gosto é doce como um quindim. Já não se fazem mais quindins, há dias que procuro.

26.9.05

Vovó Obscena

Nos últimos dias, pensei muito quase a sério em estudar medicina, para, você sabe - qual seria o melhor motivo para estudar medicina? - conhecer doenças engraçadas, reações estapafúrdias e esse tipo de coisa, somente para pesquisa de campo, para escrever posts e posts e posts - mas não livros. Que eu, em pleno avental, digo, jaleco e aquela coisa redonda e metálica presa na testa, derrubando palitos de sorvete cheios de baba, digitaria furiosamente um conto prontinho para cada doença terrível, mas engraçada, como quando testículos nascem de nascença logo abaixo do nariz até o fim do queixo, ou alguma doença psicológica, psicossomática que faz mulheres escreverem como mulheres escrevem e que ataca 96,7% de todas as mulheres, além de 47,5% dos homens, do mundo todo (sendo então não uma doença, mas uma condição normal e saudável que implica que qualquer mulher que escreva decentemente se torne anormal e doente e socialmente não bem-vinda) e sentiria a satisfação da medicina em mim e nos meus pais orgulhosos assim, assim.
A coisa mais legal seria vestir aquele jaleco de autoridade instantânea, e usar um estetoscópio, às vezes dois ou três, de cores variadas, ao redor do pescoço, sendo você uma fraude - bem, não fraude-fraude, mas diferente das pessoas honestas e sinceras - entre os estudantes estudando tão arduamente para salvar vidas, digo, vidas de verdade, e fingir seriedade. Se não existem, assim que me formar e me tornar importante (o que não me torna médica, de forma alguma) sugerirei a criação das matérias Doenças Engraçadas 1, Doenças Engraçadas 2, Movimentos Peristálticos Absurdos, Infecções Inusitadas, entre outras, e meu discurso, se fosse necessário discurso, seria que um padre com escoliose é muito mais divertido que um padre normal em se tratando de literatura e tudo mais - um amigo que seja disléxico, é muito mais que um amigo.

(Um dia, abri os livros de medicina forense do meu psiquiatra e aprendi a diferença, ilustratada por fotos reais, ou falsas de grande realismo, entre um o buraco no corpo, geralmente no corpo de uma pessoa morta, de uma bala disparada, geralmente por uma arma, à queima-roupa e de uma bala disparada, por arma também, à distância que se dispara normalmente e fiquei totalmente fascinada. Saber dessas coisas, mesmo que jamais sirvam em absolutamente nada, é muito gratificante do que saber que a hipotenusa é igual a soma - é soma? - dos catetos e que se houvesse Medicina Forense, logo depois de Matemática, as escolas não seriam tão deprimentes e criança jamais dormiria numa aula sobre crase, porque ela não dormiria de forma alguma.)

Adoro piadas com derrame, não que eu ache derrame engraçado, mas se é para ficar preso numa posição e expressão por algum tempo, por que não escolher uma engraçada? Se é que é possível sentir o derrame chegando, eu, em minha vasta idade, estenderia o dedo médio na frente do rosto (de língua pra fora) e esperaria ansiosa pela visita dos sobrinhos e primos, todos proibindo as crianças de entrar.

24.9.05

Odair Galera

Odair Galera, irmão de Bruno e Daniel Galera, nasceu, ao acaso, no ponto mais oeste do Brasil, não sei qual, durante viagem de negócios da Dona Galera. Odair, como o próprio nome, era fruto de variação, de vontade de animar uma família tão leitora e calada- Daniel Galera e Bruno Galera comparando barbas e livros com cinco anos de idade e três, ou dois, ou um, respectivamente, fazendo tatuagens, na companhia do garoto, então nominado Lama Karma Sonam Ringpoche, com uma camisetinha desbotadinha do Motorhead.
Odair nasceu com 19 anos de idade e morrerá assim, ele carrega o espírito e a alegria da idade mental e orgasmática, suponho, dos 19 anos de um garoto do Macapá. Odair é extrovertido, curte a noite, os manos, as minas, não gosta de cultura, livros ou música "sem cantor". Odair, em toda sua essência, é bastante vegetariano de má aparência - e "vegetariano de má aparência" é a descrição mais completa que se pode ter de qualquer pessoa, vegetariana ou não.
Odair Galera não tem namorada-namorada-de-verdade - primeiro, porque não quer, ele que fez 19 pela vigésima terceira vez esse ano é muito jovem para se comprometer e vai ser muito jovem quando tiver 54, segundo, porque não consegue - também por causa da coisa do vegetarianismo-feio, mas principalmente porque se chama Odair e muito porque nenhuma mulher resiste aos irmãos e/ou ao tratamento que Odair Galera prontamente aplica quando os vê aos respectivos computadores e músicas e livros.
Dias e dias em que Odair deu sardinhas nas orelhas dos irmãos - enquanto assistiam The Royal Tenenbaums - reclamando que eles passam o dia inteiro no Soulseek, ou sôcique, lendo pdf, ou pêdê-éfê, e que assim não é jeito de se pegar mulher (e aponta para a garota arrependida, olha, olha as bazookas)

21.9.05

Leslie Nielsen

Posto porque M.L. (a.k.a. my love, not yours) pediu e como quase sempre não cumpro, fiquei com dó dessa vez. Ando muito quieta e calada e misteriosa e silenciosa porque tenho duas aftas na boca - não uma ou três, mas duas - estrategicamente colocadas, provavelmente pelo governo ou pela aposição a ele, para me perturbar incessantemente, bem, até que sumam e sei que aftas somem, não sei bem como ou porque, mas não sei porque elas aparecem da primeira vez.

Blogueiro ruim sempre se parece com um chicano.

Sim, M.L. pediu para que eu dissesse isso e é verdade, tão verdade que me sinto melhor esclarecendo isso e desabafando isso. Vrrrr, fazendo dancinha de liberdade e leveza.

*

Fiz uma listinha de próximas e importantes encarnações, caso sejam importantes, enfim, para localização, correspondência e etc.

Primeira próxima e importante encarnação: Serei Pam Grier e viverei nos anos 70 e etc.
Segunda próxima e importante encarnação: Serei um velhinho sem importância, saudável, sustentado pelos netos, nos anos 00 mesmo.
Terceira próxima e importante encarnação: Serei um cachorrinho.
Quarta próxima e importante encarnação: Peter Lorre, nos tempos de Peter Lorre.
Quinta próxima e importante encarnação: Peter Falk.
Sexta próxima e importante encarnação: Sofia Loren.
Sétima próxima e importante encarnação: Maurice Chevalier, nos tempos de Maurice Chevalier.
Oitava próxima e importante encarnação: Bill Murray.
E depois quero ser japonesa de novo. E depois um cachorrinho de novo. E depois um senhor chinês entendido de ervas, inventor de algum estilo de kung fu.

Aviso que a existência dessas pessoas e a passagem de certas décadas nada impedem meus futuros planos para próximas e importantes encarnações de reviverem-nas ou mesmo me fazer assumi-las. Morte não conhece barreiras.

17.9.05

Parei

15.9.05

When I´m Sixty-Four

When I get older losing my hair,
Many years from now.
Will you still be sending me a valentine
Birthday greetings bottle of wine.
If I'd been out till quarter to three
Would you lock the door,
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four.
You'll be older too,
And if you say the word,
I could stay with you.
I could be handy, mending a fuse
When your lights have gone.
You can knit a sweater by the fireside
Sunday mornings go for a ride,
Doing the garden, digging the weeds,
Who could ask for more.
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four.
Every summer we can rent a cottage,
In the Isle of Wight, if it's not too dear
We shall scrimp and save
Grandchildren on your knee
Vera Chuck & Dave
Send me a postcard, drop me a line,
Stating point of view
Indicate precisely what you mean to say
Yours sincerely, wasting away
Give me your answer, fill in a form
Mine for evermore
Will you still need me, will you still feed me,
When I'm sixty-four

14.9.05

Anãs em Fúria

My love fica frustrado porque em nosso tempo juntos conto piadas que masculamente crack him up e não as uso aqui por considerar destoantes do que já venho fazendo, mas principalmente porque não é meu tipo de humor. Digo, ele sugeriu para tal idéia que eu a ilustrasse com a foto de um afro-americano de atitude, balançando seus bling bling e etc e eu nunca, nunca o faria - digo, ilustrar coisas que não condizem com Grace Kelly, Greta Garbo and such. Além, não há tanta graça assim em considerar versões negras para toda a literatura, grande arte ignorada durante a Blaxploitation, traduzidos para o mais erudito ebonic, como Foxy Anna Karenina, Jane Eyre Brown e Obra Completa de Fiodor Dostoiveski Dynamite.*

* Não gosto da idéia, mas desde que devemos tentar alcançar todo tipo de público, lançariamos também O Código Da Vinci Jones.

9.9.05

A Ciência do Ui

Como todos bem sabem, foi um papel de parede quem matou Oscar Wilde. Uma emboscada, aliás. Jogaram-no lá, na câmara de morte, trancaram-no e engoliram a chave, sem se importarem com os gritinhos histéricos que perdiam força. O assassino era acizentado, pois sujo, mas da mais pura cor de pão bolorento - que me dá arrepios - e tinha florzinhas azuis, daquele azul histérico que mais usam hoje em dia.
Vi uma loura de rosa - louras de rosa, estimado leitor, são o que mais há para se temer nessa sociedade de anarquistas - e senti uma dor preocupante no braço esquerdo. Meu médico recomenda fortemente para que eu as evite, as louras de rosa, mas elas estão em todo lugar, assim como as terríveis louras de verde. Esses dias, uma loura de verde entrou pela janela de casa e ficou se debatendo nas paredes até encontrar a janela novamente, e foi tão assustador que caí em lágrimas, oh - leitor.
Em se tratando de genética, como é importante a genética, há toda a História de acordo e satisfeita com minha prematura morte. Tive um tio que morreu de Camisa Feia. Nem mesmo foi necessário usá-la, não quero nem mesmo imaginar, mas vê-la somente foi suficiente, faleceu sem sofrimento prolongado em seus pijamas de muito bom corte na manhã de Natal. Abriu a caixa da tia Elvira, com medo, é claro, conhecendo os gostos da tia Elvira - não sei porquê, tias não são boas com isso de gosto - viu a Camisa Feia, e soltou o último ui, foi fulminante, caiu morto com grande delicadeza e graça sobre meu pônei, eventualmente morto também, além de ter acidentalmente rasgado todo o embrulho e desarrumado o laço. Meu sogro tem duas pontes de safena para cada corte de cabelo horrendo de minha sogra (infelizmente, eles não têm meu sangue, mas devo contar mesmo assim porque em algum momento isso de bom-gosto e graça e charme é uma epidemia, uma epidemia, digo, não muito, porque não ocorre muito, mas que se passa pelo espirro mas somente às pessoas que possuem o gene dormente, ou algo assim).
Posso morrer a qualquer momento, com momentos mais favoráveis para do que as outras pessoas, posso morrer a muitos mais qualqueres momentos do que você, saudável, normal e brutalmente feliz leitor. Pelo acaso da Natureza, por atentado ou por eu mesma, mas muito mais facilmente e de formas muito menos dispendiosas, além de variadas, dado que em qualquer dia posso eu mesma assassinar-me por usando botas por cima das calças, ou mesmo algum tonalizante barato à venda em todas as farmácias baratas. Posso pendurar um Portinari na minha cama, ler pessoas de baixa-estatura moral que estão por perto, muito perto que diariamente preciso respirar dentro de um pacotinho lindo.
Sou muito frágil, concordo com grande sabedoria, apesar de não gostar da idéia de início e de ter pertubado em muito minha infância - porque infâncias são bregas e os gostos mal-formados. Como vivo invariavelmente de forma perigosa, deve ser tudo muito breve aqui no Brasil, e com todas as, Deus nos ajude, louras de rosa, mas aprendi a aceitar minha condição com naturalidade assim como aceitei a morte de Marilyn Monroe. É sempre terrível, como foi para mim, para uma pessoa sobreviver nos anos oitenta. Que vale mais uma breve vida de beleza do que, você sabe. Estamos muito mórbidos.

8.9.05

O Menino Que Não Sabia Usar Onomatopéias

O carro fez zooompa e eu tibluf! no retrovisor e meu pai tchiiiiiiica em mim!, disse O Menino Que Não Sabia Usar Onomatopéias para amiguinhos que se entreolhavam com as caras enrugadinhas (logo, idosas) de tão inquisitivas e sobrancelhas que se revezavam no ar, sendo o Hélio, o Garoto da Monocelha, dono da única sobrancelha mais alta do ensino fundamental.
Diariamente, O Menino Que Não Sabia Usar Onomatopéias seria ridicularizado em rodinhas no recreio. Ah, olha a pombinha perto da Aninha Nariz Adunco, como ela faz?, como ela faz?, miau, vrum ou tchibum?, provocavam os mais malvados com empurrões assim, de levinho, cinematográficos.
E O Menino que voltava para casa com dizeres nas camisas "masco chiclete fazendo burp" chorava uma lágrima e três quartos, passava canetinha vermelha no corpo e alegava ser sangue à mãe aterrorizada - pegaram os canivetes, os apontadores (?) e lapiseiras e fizeram slurp, slurp, mãe, em mim todo olha - e mostrava a gotinha que nunca caía, perto de um "ferimento" no joelho.
A mãe, Não Boa Com Adjetivos, resolveu lhe contratar um professor estrondoso. Tardes estapafúrdias de infinitos estudos para O Menino e o Professor Estrondoso se seguiram e com muitos esforços que O Menino chegou a dar onomatopéias perfeitas para frases de grau elevadíssimo como Hitler comia mariscos quando se engasgou, tropeçou em dois vegans (muito difícil, a onomatopéia dos vegans) e quebrou a bacia em três lugares - e nada mais de chuin, chuin, chuin.
O Menino Que Não Sabia Usar Onomatopéias voltou revigorado das Férias, espremendo os dedinhos pra fazer o comecinho de Come Together, a mãe lhe deu um beijo adiposo. Quão triste foi quando todos voltaram descascando e considerando a nova moda do verão, apesar de inverno, o uso de metáforas e, depois, hipérboles - hipérboles, pfiuu, só para os mais superdupers.

5.9.05

Fancy Pants e a Falsa Sincronia

Fancy Pants, garoto homossexual nascido no Harlem, agora, no topo de sua vida, procurava seu Super Fancy Homem. Como com todas as Frutas da humanidade, o pequeno Fancy Pants sofreu muito, quando pequeno. Teve uma infância que foi, francamente, tough titty, e que não cabe a mim narrar todas as lágrimas, mas digo que ele estaria desesperado à idade sugestiva de vinte e quatro, sem nunca nunca ter encontrado amor.
Fancy Pants, contudo, aprendeu uma das lições mais importantes de sua vida durante sua infância que foi, francamente, tough titty; Ele assistia tevê com um amigo hétero, dos tempos héteros, e observou que o amigo ficava extremamente feliz, digo, ria e sorria e pedia por hi-five, quando ele, por acidente, burped no exato momento em que ele burp. E isso era Fingir Amor pel´A Sincronia.
A Sincronia diz que quando duas pessoas se amam, elas começam a fazer as coisas ao mesmo tempo, desapercebidamente, como erguerem os copos e levarem até a boca num jantar ao mesmo tempo, e alcançar o talher ao mesmo tempo - ou, completar a frase que o outro começou, etc, you know - e essa era a idéia da então Falsa Sincronia, que dizia que para pretender amor, forjar Sincronia.
Fancy Pants passou anos treinando sua resposta motora e mental, ou, mental e motora, para ganhar alguns milésimos de segundos para reconhecer o ínicio de ação, frase ou idéia e responder, mais ou menos, ao mesmo tempo que ação, frase ou idéia ocorria - e foi muito bem sucedido. Também estudou cultura e pessoas, para poder reconhecer o que pessoas de cultura podem estar para dizer (e assim Fancy Pants era o #1 de todas as professoras por quem passava e, assim, conseguiu tons de thumbs up).
Fancy Pants ficou conhecido em todo o mundo, ou em todo o submundo, como o melhor falsificador - escrevia novelas falsas, pintava falsos quadros - de todo o mercado, e era um jovem falsificador. Gozava de saúde financeira, pois também era o melhor falsificador de moeda e um método patenteado de decoração com folhas de ouro - era um grande falso designer e falso cozinheiro. Mas, nunca, nunca Fancy Pants encontrou amor, nem mesmo como Fabio Pinto Jr. ou Alberto Bonaparte, grandes de suas maiores tentativas e grandes fracassos que, em dado momento, se cansavam deles mesmos - é raro, mas é uma daquelas coisas que acontecem.

4.9.05

Twice the Love

Sometimes a girl can feel so all alone
Without a lover to call her own.
Sometimes it's so bad,
she wants to explode.
Grab the first man she sees and tear off his clothes.
But she won't.
No, she can't.
She needs a special different unusual man.
Because that girl,
Who looks like me
She has wants, but she has needs.
Any of you got needs?
I've had twice the adventure
I've cried double the tears.
I've had two times the bad times in only half the years.
And now I need a man
With twice the will to live
I need twice the men
Cause baby, I've got twice the love to give
I need twice the men
Cause baby, I've got twice the love to give

3.9.05

Aquela Vaca da Leila Diniz

Desde pequenininha, o que eu sempre quis era não fazer a mínima diferença, não ajudar o mundo, nem um pouquinho. Atrapalhar um pouco, até. O que me importa se o Ártico está derretendo? Nunca me deram o pônei que eu constantemente pedi. E agora, ele afogaria de qualquer jeito, não é? Que me importa se as cidades caiçaras sumirem? Vão tarde. Essas pessoas vivem para manter tudo de feio no mundo - por que não um extreme makeover?
Eu queria, de verdade, que uma onda enorme invadisse o Guarujá - o problema com o Greenpeace é que eles não são muito de salvar Veneza, mas Guarujá, Boqueirão, Itanhanhém - e que chegasse até São Paulo, capital, tomando todos os prédios até o décimo andar, onde, do décimo primeiro, eu poderia pescar e sair pra passear de gôndola, vendo aquele bingo medonho no fundo d´água.
Clique lá, mas cuidado com as roupas, eles andam sujos, sujos de Guarujá, Boqueirão, Itanhanhém e, não sei porquê, Mogi - eles também dizem que o aquecimento global é real. Não é, tudo brincadeira. As pessoas me deixam tão fria, tão fria nesses dias, que não há nenhum aquecimento aqui - imagine global! - no décimo primeiro andar, o andar do nível do mar em uma cidade antes conhecida como São Paulo, que agora chamo de Bologna. Aliás, me proclamarei o príncipe regente, sim, porque princesa é muito kitsch. Meu pônei com super-poderes submarinos, meu pônei Aquaman, é o rei, o incontestável e natural rei, enviado por Deus, nesses tempos tão divertidos em que Itanhanhém is no more. Oh, quando chegar a hora..

2.9.05

Da Inevitável Arte do Ódio

Eu percebi que superestimo o esquema de posts, que tomo muito cuidado com as palavras que uso - na minha medida, claro, porque o cuidado dos outros pode parecer um desleixo meu e vice-e-versa, mas mais vice que versa - que tenho muito medo de usar certas cores e certas imagens que não combinam entre si e não têm nada de bonito, composição formal ou temática, borboletas and such, o cuidado demasiado com a fonte e com o ato de não-colocar gifs e selos, porque acho brega, e tudo mais.
Veja, meu medo não é do gif e dos selos, etc em si, mas das pessoas que usam esse tipo de coisa. Eu aposto que a fonte Comic Sans é uma fonte como qualquer outra e faz suas coisas de fonte, todos os dias, como todos os outros - mas pessoas que não têm preconceito com Comic Sans não são pessoas. Gosto de preconceito, é inveitável e, de minha parte, acho que salva muito tempo. Aposto que Comic Sans é católica e está contente em ser uma mártir para nós, morrer por nós. Morra, Comic Sans, morra. E veja o sorriso dela quando fúcsia.
Eu percebi, afinal, que tudo gira em torno de preconceito. Que tenho muito preconceito para com pessoas que não gostam de preconceito - mas que idéia pré-concebida é essa sobre o preconceito? Não pensou nem mesmo duas vezes e já foi castigar o preconceito, não? Coisa feia - que se eu tivesse preconceito, eu não perderia tempo com gente de template feio e não perderia ainda mais tempo tentando formular um blog que evita essa gente, gente que tem preconceito com preconceito. Mas é, eu repito, inevitável. Por isso:

Lista de Preconceitos Virtuais*

- Falta de unidade no template, diversas fontes, diversas cores no mesmo post. Cansa a vista e revela mau-caráter.

- Quantidade absurda de links. Me dá a impressão de que é um troca-link. Nada que ele ou ela indique presta de verdade, é só pra praticar boa vizinhança e ganhar um link ali e lá. Enfim, alguém que quer popularidade no blog. O pior tipo de ser humano existente.

- Cores feias. Por cores feias entenda o vestuário de um clubber e aquelas lojas de artigos que brilham no escuro. Cores primárias ou secundárias, sem grandes misturas de outros tons, simplificadas, atraentes à crianças. Neon. Fúcsia.

- Símbolos que não estariam no quarto de um garoto. Digo, pele de leopardo, borboletas, fadinhas e cavalinhos alados. Toda a cultura feminina, geralmente infantil, é baseado num campo livre para homens extremamente gays poderem correr livres. Que eu saiba, nenhum dos gêneros quer ser confundido com uma bicha muito louca, a não ser que você seja uma.

- Selos e gifs, como disse. Você pode ter um ou dois selos porque são práticos e extremamente necessários. Mas ter uma quantidade absurda deles, além de perturbar a vista e deixar seu template feio ainda mais feio, faz com que as pessoas se distraiam do seu texto.

- Seu texto. É ruim, sem criatividade. Você soa como um personagem de novela. Vê, agora você se sente ultrajado ou utrajada e comenta e/ou posta, se referindo a mim, mas não diretamente, mas claro que você não tem capacidade ser sutil o suficiente para ter uma graça. Bem provável que você ocorra à paródia, que faça uma lista, como eu.

Enfim, aparecem novos preconceitos todos os dias e você não pode simplesmente acabar com eles, pobres dos preconceitos. Odeio campanhas em blogs, não disse, não é? Mas crio uma agora que defende os direitos dos preconceitinhos, na minha própria e graciosa paródia.

*meramente formais, se eu falasse dos temas...uff

1.9.05

Menina Gato

Menina Gato, na idade de cinco anos, vestiu novamente seu conjuntinho de couro-cor-de-rosa e botinhas militares e pulseirinhas de espinhos e foi caminhando até a escolinha. Menina Gato usava o cabelo tingidinho, tatuagenzinha de chiclete, toda nervosinha quando se encontrou com O. O Garoto disse, "Oi, como vai?", e a Menina Gato chutou-lhe o pipi e os caderninhos dele voaram e se espalharam todos e disse ao Garoto caído e chorando e gritando na rua, "Life is a bitch, now so am I", e deu uma cusparadinha nele que, sem querer, veio com uma balinha de goma vermelha (e fez um gesto, assim, de gato, com a mãozinha e um prrrr) e correu.
Menina Gato não foi à aula naquele dia, estava muito deprimidinha e melancólica e sombriazinha, fumando apaixonadamente seu último cigarrinho de chocolate, e sem nenhum outro pacote de, ou dinheiro para. Matava o tempo com seus coleguinhas, sua ganguezinha de desajeitados, igualmente rejeitados pela comunidade toda inocentinha e fácil de se chocar, pela primeira série B e pela festinha de aniversário do Jorge (da terceira F), garotos e garotas bichinhos variados - a Garota Girafa, o Menino Lesma, o Guri Pulga, que era cheio de piolho e a Pré Adolescente Coala, usando uma camiseta do Iggy Pop - todos cheirando colinha tenaz e bebendo café de uma sacolinha de papel pardo, recitando poesias improvisadas, que não rimavam, e sob efeito, como:

Nada ficou
De nós, meu amor,
Nesse amontoado de carnes pulsantes
Purulantes
Viscosas
Amor, amor, amor,
A não ser,
Sorvete de cocô.

Menina Gato, dominada e transformada pelo vício, ficava toda descontroladinha, dançando voluptuosamente, oferecendo a si mesma, agarradinha na perna do tio da porta da escola, fato que se repetiria muito até o seu desaparecimento. Por dias, meses, nada da Menina Gato - e não foram os membros da gangue que sentiram sua falta, oh, não. Chegaram a pensar que o vício a levara às últimas conseqüências, muitos. Mas ela voltou da rehab, onde não podia manter contato com seu histórico negativo, limpa e sóbria, gravidinha de muitos meses já, de seu gatinho Mr. Bonkers, depois de um cry for help atendido pelos próprios a quem havia agredido, casada agora com o Garoto que dizia-se pai e responsável por todos os gatinhos.