Million Dollar Kiss: 02/01/2006 - 03/01/2006
The Ego's Last Stand.

23.2.06

Match Point

Eu geralmente falo sobre filmes quando os amo tanto a ponto de fazer assim um gestinho de abracinho no ar como se a alminha do filme estivesse em meus braços ou quando os odeio imensamente ou quando simplesmente tive alguma conclusão brilhante durante a sessão. Não é o caso, nenhum deles, de Match Point, o que torna isso especialmente difícil pra mim, mas eu meio que achei que não devia deixar passar um filme tão esquisito considerando o autor.
É um filme bem Woody Allen, ao mesmo tempo que não tem absolutamente nada a ver. Eu me pergunto se as pessoas se encontram em Londres por acaso tanto quanto as pessoas (geralmente, casais) se encontram em Nova Iorque. Não estou falando de realismo, de coisas que realmente acontecem em Londres, mas apenas que isso é muito muito usado em todos os filmes anteriores passados em Nova Iorque. Lembrei muito do filme com o cara que transou com a torta e a Christina Ricci, naquela questão de estar com alguém e se interessar por alguém que também está com alguém - bah, Manhattan é assim - mas eu não estou reclamando, hear. Eu gosto de Woody Allen, não me importo com temas recorrentes dele.
Em Match Point, todos esses temas têm um tom muito sério, não é muito risível quando o personagem faz de tudo pra convencer a namorada a sair com o outro casal. Em todos esses filmes em que o Woody Allen escalou atores para imitar Woody Allen - o cara que transou com a torta, Will Ferrell, todos gaguinhos e desajeitados - tudo sempre foi muito risível. Aqui é muito mais sério e muito mais bonito. Por favor...


Jesus Cristo...

É impressionante ver algo tão ambicioso do Woody Allen. O filme parece uma adaptação perfeita de romance. Na verdade, é uma adaptação perfeita de romance. É Crime e Castigo. Em Crime e Castigo, quando li, tudo que me interessava era o caso amoroso do Raskolnikov. Bom, talvez seja isso.
É maravilhoso ver um personagem tão digno se transformar completamente. Que edição. Não vou nem mesmo falar dos diálogos bobos que vocês viram no trailer, nos clichês de se beijar na chuva. Você meio que perdoa. Eu perdoei.
Eu ainda não sei se há o "castigo" nesse filme. Tive a impressão de que sim e de que não tinha nada a ver com supressão de culpa como li por aí. Mas não sei. Eu realmente não sei. É um dos poucos filmes que eu não consigo tirar uma conclusão própria (errada ou certa) sobre o que eu acho que o filme quis dizer. Talvez seja só a parte séria de Melinda e Melinda, não sei.

19.2.06

Minha relação com publicitários, exatamente

"Os relacionamentos entre diretor e produtor quase sempre são dramáticos, e de qualquer forma, raras vezes podem ser formulados em termos de colaboração, a qual, se existe, é a mais tênue e moderada possível e sempre acaba configurando um extenuante duelo constituído de astúcia, golpes baixos, persuações patéticas ou exibições ameaçadoras. A relação diretor-produtor está entre as mais cômicas e insidiosas, viciada desde a raiz por um defeito de incongruência, por um antagonismo inconciliável. De um lado, está o diretor, com suas idéias e histórias, do outro, o produtor, que pensa ser o mediador entre o autor e o público e acredita nisso com o furor inspirado de alguns sarcedotes dos templos gregos, que não admitiam nenhum controle no obstinado diálogo com a divindade. Os produtores muitas vezes se comportam como oráculos infalíveis do sentimento e das necessidades do público, enquanto quase sempre sua idéia de público, sua intenção, é completamente abstrata, precede uma realidade inventada por eles, inexistente, contrafeita. Se acontece, por exemplo, de um filme ter sucesso, sua inquietação, seus anseios especulativos podem fazer com que caia em abismos de obstinação hilariantes, pueris. Desde que fiz A doce vida, há sempre algum produtor que insiste em me propor uma variação, uma reciclagem, uma continuação: filão quase inesgotável, dada as combinações que se poderia obter com o substantivo "vida" e o adjetivo "doce". Depois de Os boas-vidas (o título orgininal do filme é I vitelloni, que, se traduzido de forma literal, seria Os bezerrões, em português) aconteceu a mesma coisa. Encontrava o mesmo produtor, ou outro, que após enfáticos entusiasmos pelo filme que acabáramos de fazer, parava um momento, como se refletisse, e depois, dissimulando com dificuldade uma esperança infeliz com relação ao projeto que acompanhávamos, lançava: "As vaquinhas?" Ou me telefonava algumas horas mais tarde excitado, radiante. "Os formigões! O que acha?" E se eu perguntasse: "Mas quem são os formigões?", ouvia a resposta: "Você é que sabe! Você é o diretor"..."

Fazer um filme, Federico Fellini (extremamente bom).

14.2.06

Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin

Vi Walk the Line. Geralmente, não gosto de biografias porque, como disse my love, haverá o momento de declínio em que eles mostram o cantor/ator babando nos filhos de tanta droga e ele esmurra a avózinha dele, xinga o cachorro e é sempre muito chato, mas gostei de Walk the Line.
Eu tenho essa coisa por cicatriz de lábio leporino, o que não me faz a crítica mais objetiva. É melhor que a biografia da Dorothy Dandridge, com certeza. A cena inicial é muito boa mas eles meio que se esquecem de fazer cenas boas depois. Sei que as falas eram bastante estúpidas e os atores (Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin) conseguiram não parecer estúpidos. Um milagre, nesse sentido.
Fiquei pensando naquelas críticas idiotas ao Ray, dizendo que Jamie Foxx não interpretava Ray, ele era Ray, dãã. Nem vi Ray, o filme, só vi o Jamie Foxx balançando a cabeça como nenhum NENHUM ser-humano faria e pensei naah.
Às vezes, as pessoas ganham Oscar por não se parecer com humanos, como Cate Blanchett em The Aviator (e eu roubei isso de algum blog americano, não lembro qual) e acho que foi esse o caso do Ray, digo ignorantemente, tão bem.
Joaquin Phoenix parecia uma pessoa de verdade, não era uma caricatura, uma imitação, nada. Aliás, parecia uma versão do Johnny Cash por Joaquin (Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin) Phoenix, e eu, ignorantemente, acho que é isso que ator tem de fazer.
Tenho muito medo pelo futuro do Joaquin Phoenix se ele ganhar um Oscar. Ultimamente, as pessoas só fazem porcaria depois de ganhar um Oscar. Veja Miami Vice. Mas mesmo se o filme for muito ruim, eu estarei olhando pro Joaquin, praquele nariz triangular, a cicatriz (como ele faz a barba lá?), os olhos com cílios excessivamente femininos, as sobrancelhas, as sobrancelhas! tão pretinhas e ENORMES. Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin Joaquin.

7.2.06

Mas poodles são difíceis de se perdoar

Hoje inventei minha melhor invenção, um sistema para mim mesma ser mais tolerante com as pessoas em geral, digo, é a melhor invenção de todos os tempos. Está com os registros encaminhados: Sempre que as pessoas me começam parecer asquerosas, principalmente burras, as imagino como cachorrinhos. Tudo é perdoado se as pessoas são como cachorrinhos.
Isso veio da minha observação de que, talvez, se meus cachorros falassem e lessem e assistissem coisas, fossem uns idiotas, digo, não seriam porque são meus e viver comigo, ter essa magnífica experiência, é estar respirando dos mais altos ares e se alimentando do melhor maná enquanto assistimos os melhores momentos de America´s Next Top Model.
Mas suponhamos, muito loucamente, que um dos meus cachorros resolva ser "contra esses enlatados americanos", eu tomava todos os brinquedos mas perdoaria eventualmente em algum momento de pura fofura, como quando ele pende a cabecinha pro lado quando falo que Chomsky é um idiota.
A razão de porque não perdoamos as pessoas tão facilmente quanto perdoamos um filhotinho de schnauzer que pegou a pontinha do rolo de papel higiênico do banheiro e deu várias voltas ao redor da sala de jantar é porque as pessoas não são fofas quando dizem, não sei, que "os americanos são responsáveis pela morte do cinema brasileiro na Era Collor".
Todos bem sabemos que pessoas que dizem esse tipo de coisa tentam muito não serem bonitinhas, mas precisamos nos esforçar por elas. Hoje encontrei um daqueles esquerdinhas que realmente acredita que algumas pessoas são más e que todas elas trabalham na Globo e que a Globo foi responsável pela ascenção de Hitler, pela morte de River Phoenix e a extinção dos tamagochis e o perdoei melhor que qualquer budista por encontrando sua personalidade canina - um mini pincher chamado Conchito Juaréz Valdán, ou algo.
De repente, eu estava rodeada de cachorrinhos fofinhos e estupidinhos, como devem ser, andando nas ruas usando terninhos e vestidinhos, batendo os focinhos nos vidros das vitrines, correndo atrás dos rabos e os perdoei todos instantaneamente.
Sou um chow chow, se querem ou precisam saber. Um lindo chow chow sobre uma almofada grande e fofa segurando uma bolinha com as mãozinhas, a linguinha rosada brilhando ao sol enquanto uma borboleta pousa no meu nariz (muitos atingem o Nirvana através dessa imagem).

6.2.06

Quickies

-Vi mais de três pessoas, o que geralmente significa uma só, dizendo que Tim Burton estava tentando ser Spielberg com A Fantástica Fábrica de Chocolate. Eu acho que Spielberg nunca faria A Fantástica Fábrica de Chocolate, mas eu acho que ele faria "Charlie", que seria focado no pobre prognóstico de Charlie, rodado todo em preto-e-branco, com profunda análise dos efeitos sociais locais depois do fechamento da fábrica Wonka (que se mudou para seja lá de onde os oompa-loompas vieram).
O único momento em que cores apareciam no filme seria o da antiga e rasgada embalagem de chocolate Wonka que o avô de Charlie, soro HIV positivo, exibe como um tesouro. Dakota Fanning interpretaria Charlie, com o cabelo curtinho, que, por fim, precisa se prostituir e se envolver com o tráfico de drogas para poder pagar o tratamento de seu avô e prover alimento à sua família.
Não sei exatamente em que momento parei de me interessar por Spielberg. Rejeitar Spielberg como um dos diretores vivos mais capazes é coisa de primeiro-anista de cinema que não viu ou sabe como foi feito Encurralado, por exemplo. Mas ele ficou chato, não ficou? Não sei bem quando foi que ver um filme do Spielberg sendo anunciado deixou de ter efeito em mim. Não tenho vontade de ver Munique, não vi Guerra dos Mundos.

- Gangues de Nova Iorque foi uma incrível decepção pra mim e também não queria ver O Aviador, mas vi e foi também uma decepção. A única coisa que me faz continuar tentando e tentando com Scorsese é a de que ele parece um cara e tanto. Em entrevistas, nos filmes dos anos 70,80 e início dos 90, ele parece um cara tão bom. Uma vez, ele disse que ele adorava qualquer tipo de filmes e que mesmo nos filmes ruins, ele achava algo que gostava e talvez seja isso, ele está experimentando fazer filmes ruins, for the heck of it.

Aqui está meu TOP 6 do Scorsese, que vi:
Mean Streets (esqueci o título em português)
Depois de Horas
O episódio dele em Contos de Nova Iorque
Cabo do Medo
Goodfellas
Taxi Driver

Digo, veja pelo simples exemplo de trocar a imagem de Robert De Niro e Harvey Keitel por Leonardo Di Caprio. É o exemplo mais perfeito pra minha teoria de que tudo é mais aviadado hoje em dia. Não sei quantos filmes de viado tão concorrendo ao Oscar agora. Só um? Pra mim, parece um monte. Capote é o único que quero ver.

Por "filme de viado", compreendo também King Kong - mas não foi nomeado pra nada importante.

- Estou lendo pedaços do livro do Peter Bogdanovich entrevistando vários diretores e eu gostaria de pegar, pelo menos, a parte do Hitchcock, tirar milhões de cópias, distribuir por aí e recitar despropositamente em qualquer ocasião. Não encontro nenhuma passagem que eu queira exatamente mostrar, mas é simplesmente maravilhoso.

Achei uma, eu acho, sobre Um Corpo que Cai, "No livro, só no final da história se revela que as duas mulheres são na verdade a mesma. Sam Taylor, que trabalhou no roteiro comigo, chocou-se quando eu lhe disse: 'Sam, o momento de dizer a verdade é quando Stewart se depara com a morena'. Ele perguntou: 'Santo Deus, por quê?'. E eu respondi que, se não fizéssemos isso, como transcorreria o resto da história até que revelássemos a verdade? Um homem apanha uma morena e vê nela a possibilidade de semelhança com a outra mulher.Vamos imaginar isso na mente do nosso público: 'Então agora você tem uma morena e vai transformá-la'. Que história estamos contando com isso? Um homem corteja uma mulher e, bem no final, descobre que é a mesma. Talvez ele a mate, ou seja lá o que for. E cá estamos de volta a velha situação: surpresa ou suspense. E chegamos à nossa velha analogia da bomba. Você e eu estamos aqui sentados, conversando, e há uma bomba na sala. Estamos conduzindo uma conversa bastante inócua, sobre alguma coisa. Chatice. Sem nenhum significado. De repente, bum! A bomba explode e o público se choca - durante quinze segundos. Vamos mudar. Fazemos a mesma cena, escondemos a bomba, mostramos que a bomba está situada ali, mostramos que deverá explodir à uma hora - e agora são quinze para uma, dez para uma - , mostramos um relógio na parede, voltamos à cena. Agora nossa conversa se torna muito vital, devido ao nonsense. 'Olhe debaixo da mesa! Idiota!' Agora o público trabalha dez minutos em vez de ter uma surpresa durante quinze segundos."

- Acho que o primeiro filme brasileiro que eu for gostar de verdade tem de ser totalmente desprovido de mensagem social ou brasilidade. Só fazem filmes com um dos dois ou os dois. Brasilidade significando "aí, zuou toda a po-rra, aê", que quase sempre soa tão natural e real como "mamãe, um saci-pererê roubou minhas ceroulas e as anáguas da Mariazinha". De repente, dou uma importância extra a atores. Jesus.

1.2.06

Vi um artsy fartsy na rua e pensei que era você

Eu costumava odiar artsy fartsy e agora entendo. Suponhamos, você estuda moda. Você é relativamente normal, digo, pensou em usar vestido com calças por baixo mas nunca o fez de fato. Você chega no curso de moda e percebe que todos eles são igualmente normais e se sente aliviada. Mas você espera que seus colegas saibam o que é Chanel, mas eles não sabem, provavelmente, porque são pessoas normais e estão no curso errado.
E aí vem a vingança dos artsy fartsy. Você pode desprezá-los mas eles sabem que são seu último recurso caso queira deixar sua geekery confortável numa sala. Você começa a amar, sim, amar, as pessoas mais excêntricas e esquisitas. Quem seriam os amigos deles? Eles precisam ler livros. Eles precisam saber de algo. Que delícia conversar com o garoto vestido de Truman Capote, digo, se gostam do que falam.
Eu acho que os pais não andam surrando os filhos direito. Se um pai sente que seu filho não nasceu para, digamos, moda, ele deveria ameaçar de todas as formas possíveis de modo que o filho desista e vá estudar administração de empresa, publicidade, qualquer coisa babaca padrão. Falta vovózinha, eu acho, que diga que isso, moda, é coisa de viado ou hippie etc. Todos profissionais seriam muito melhores se tivessem obrigatoriamente de brigar com a família inteira pra poder seguir uma paixão, como uma espécie de processo seletivo que realmente funciona.
Lavo os pés dos próximos artsies fartsies que eu encontrar - aparecam! que saudades! que saudades! - se eles quiserem tirar os respectivos all stars, coturnos e chinelinhos japoneses etc.