Em L´Amour en Fuite, quando Jean Pierre Léaud se despede de seu filho na estação de trem, ele ordena que o filho estude bastante para se tornar um grande músico. O garoto, enquanto o trem já está partindo, pergunta o que aconteceria se ele não estudasse muito e Jean Pierre Léaud responde que ele se tornaria um crítico de música. Lester Bangs, quando perguntando se ele também não era um músico frustrado, respondeu que todos são músicos frustrados - mas nem por isso todos são críticos. No último America´s Next Top Model, eliminaram uma garota que não sabia avaliar as fotografias das outras modelos. Ela só dizia "está ok pra mim", "bonita" e etc, enquanto as outras sugeriam melhores poses e iluminação. Não que um crítico não possa simplesmente dizer "bonito", mas é meio que essencial falar mal da maioria das coisas, porque a maioria das coisas têm motivos para serem faladas mal e só críticos conseguem ver, sim, como heterossexuais e Katie Holmes, só heterossexuais conseguem ver graça na Katie Holmes. Eu estou parcialmente feliz com o fracasso de Da Vinci Code em Cannes, vaiado e tudo, e não por sua abordagem corajosa de um tema difícil, mas por ser ruim mesmo, risível. Não que eu achasse que fosse ser ótimo, eu continuaria a odiar de qualquer forma, porque é vil, adaptações de best-sellers são vis e sujas como a Paris Hilton. Mas, sabe, vai ser o maior sucesso com os taxistas do ponto perto daqui de casa. Pior que um filme ruim que é aclamado pela maioria da crítica e se dá relativamente bem na bilheteria, é um filme que foi recebido terrivelmente pela crítica e se dá bem na bilheteria. Eu realmente não acho que as economias de Hollywood sejam um assunto assim tão interessante, mas tudo que leio no Libertas (blog americano cujo endereço, hoje, parece estar fora do ar) é sobre como as bilheterias têm fracassado ultimamente. Que Mission Impossible 3 tem sido um desastre (well, olha como o Tom Cruise enlouqueceu, se lançassem o episódio do South Park em que o Tom Cruise não quer sair do armário nos cinemas, com certeza, venceria Mission Impossible) que King Kong foi uma gafe, etc. Os últimos filmes que realmente apresentaram sucesso foram Narnia e The Incredibles (que tem sustentado o estúdio até hoje por causa dos dvds, dos brinquedos e tudo e god bless you, The Incredibles, sucesso de crítica, de público e de Nico). Mas essas coisas nunca refletem muito no mercado do Brasil. Geralmente, é bem o contrário, e tudo por culpa dos taxistas que têm ponto perto da minha casa. Uma vez, num longo trajeto do aeroporto até minha casa, ouvi desse homem como Kill Bill era ruim e eu não sabia se eu ria ou se batia nele como minha própria bitch. Um dos motivos para odiar pessoas que não são críticas, além do mau-gosto em tudo que fazem, até se vestir e comer, é que elas não sabem explicar nada, elas não sabem te convencer de nada, francamente, não sei como estão vivos, como chegaram tão longe. Se não me engano, ele achou o sangue todo muito falso, muito onde já se viu? e até parece!, e o final aberto. Sim, acho que era isso. Quer dizer, ele não disse "final aberto", ele disse "e num dá em nada" ou "e num acaba" ou "e você fica...", algum desses. Pessoas que não são críticas realmente não se dão bem com palavras e eu não consigo pensar como essa gente faz pedidos em restaurantes, "me vê aquele coisinho com um pouquinho daquele treco em cima", e provavelmente, é algo nojento, como mergulhar pão no café, que coisa mais anti-natural, que aberração! Por isso, estou preocupada com a chegada de Da Vinci Code no Brasil, por "contesta assim né, a igreja" e eu querendo demonstrar sono e dando cabeças na janela, mas muito nervosa pra conseguir atuar apropriadamente, resultando em alguma dor. Recentemente, mostrei um filme japonês dos anos 60 para uma amiga, kabuki feito lindamente com baixo orçamento e oh, que dor, "a luz acende e tudo fica escuro ao redor dele, do nada, como assim?" - na verdade, eu formulei essa frase, demorou uns quinze segundos até eu entender do que ela estava falando, mas quinze segundos porque eu sou realmente boa em entender o que as pessoas estão tentando... Você chega a pensar que jamais teria amizade com alguém assim, mas no mundo real, digo, quando se esforça para estar nesse mundo real, você acaba fazendo essas concessões e você tenta não gritar com ela em nome de uma sobrevivência com muitos sucos gástricos, que já é algo um pouco melhor, eu quero acreditar, que ficar em casa. Eu estou sendo muito maldosa com alguém que é minha amiga, isso é também muito característico de crítico, você não pode evitar ser maldoso, pelo menos, eu não sou Da Vinci Code. Ela é maravilhosa, mas meu Deus, não fale sobre coisas maravilhosas. Mas pagamos pelos nossos pecados, qualquer crítico passaria meses antes de dormir com qualquer uma que acha The O.C. sensacional (sério, não existem coisas boas cujo título são siglas, pense nisso) e qualquer rotina, ir ao super-mercado, etc, é muito muito difícil. Penso agora que meu exemplo da Katie Holmes não foi bom porque, obviamente, os heterossexuais estão vendo algo que não existe lá, eles vêem, não sei, a Joey, o cabelo, o sorriso e não conseguem ver aqueles olhos caídos, aquela cabeça de formato terrivelmente estranho, aquela falta de boca e uma falta geral de qualquer coisa graciosa. Críticos vêem algo que está ali mas que ninguém mais vê ou sabe articular, como a maravilhosa fábula da roupa do rei que só pessoas inteligentes poderiam ver, só que ao contrário, só pessoas burras conseguem ver a roupa - que não conseguem descrever, porque são burros - e apenas uma criança, oh, eu choro, vê que o rei está pelado e que tem uma disposição de pêlos muito esquisita, sério, tufos espalhados ao acaso, sem nenhuma métrica ou cuidado, olhe só. Sempre que me chamo de crítica, rio mentalmente como um nerd sendo apalpado, porque ser crítico significa coisas maravilhosas, que tem suas consequências, mas coisas maravilhosas e tão ou mais honrável do que ser escritor, diretor e, com certeza, músico, e qualquer pessoa que possa dizer que até ser crítico - porque, na cultura geral, ser crítico é uma falha - é demais pra mim, eu só aponto meia dúzia de resenhas, especialmente brasileiras, e pronto.