Million Dollar Kiss: 09/01/2006 - 10/01/2006
The Ego's Last Stand.
29.9.06
28.9.06
Demônios não espirram
As pessoas que tiveram sucesso social no colegial eram simplesmente as pessoas que descobriram antes de todo mundo como era a melhor forma de se apresentar, qual cor destaca os olhos, como maquiar os lábios, etc. Não estou, em absoluto, desprezando a coisa toda. Faz apenas um ano e meio que descobri como meu cabelo, na medida do possível, fica perfeito em mim. Foi um caminho muito difícil, de muitas encruzilhadas, tentativas e desacertos, mas eu descobri - cor natural, curto, liso, desfiado e irregular. Ainda não descobri a forma perfeita de maquiar meus olhos ou minha boca, mas eu descobri as sobrancelhas perfeitas. Uma vez que essas coisas param de te preocupar, sobra mais tempo e espaço para, digamos, exercícios intelectuais envolvendo todos os tipos de arte ou mesmo filantropia.
24.9.06
Don´t Talk (Put Your Head On My Shoulder)
Não sei o que houve que meu ipod que esvaziou completamente e agora, estou tendo uma tarde bastante solitária e triste copiando dúzias de cds para meu computador. Estou lendo Nine Stories (percebo agora que demorei demais para querer ler) com alguns intervalos para observar a tela como se eu estivesse tomando conta da minha máquina de lavar numa dessas casas de máquina de lavar americanas. A essa altura, eu consegui ler tudo sobre a família Glass, inclusive Hapworth 16, 1924, uma longa carta do próprio Seymour Glass, publicado na New Yorker, e que pouca gente conhece. Eu li Franny and Zooey junto de The Man Who Was Thursday e foi como misturar heroína com sei lá o que que tenha matado River Phoenix. Eu nunca fiquei tão abalada por causa de livros. Eu choro e tal, mas F&Z e TMWWT, juntos, destruíram minha vida. Foi como me reconciliar com toda a minha educação e meus pais e o mundo todo - o que não é meu estilo.
Salinger é o único escritor que eu tenha lido que me faz brigar com a literatura e não ler nada por meses e meses. É tudo por amor, é claro, como se a própria Literatura me mostrasse seus esforços diários, sua superioridade em nossa relação e como eu não contribuo em nada (simplesmente porque não posso, jamais vou merecê-la e ela estaria muito melhor com um outro alguém). Eu odeio ler Salinger porque é bom demais. Existem outros escritores bons mas que se deixam ficar mais marcados pelo humor, pela leveza, pela concisão, escolha de palavras e outras técnicas do que simplesmente pela bondade do autor.
Eu terminei The Laughing Man que é, meu Deus, tão boa e eu preciso descansar. Eu conto quantas páginas tem a próxima história, penso, não vai dar. Saio do quarto e encontro a sala vazia, com exceção dos móveis normais, e escura (as cortinas são grossas demais) com a maior decepção de todos os tempos no rosto. Um cachorro vem me fazer festinha, agarro no colo, porque não tenho mais o que fazer. Olho para a pia, para o chão da cozinha e não há nada, coloco o cachorro no chão, decido comer pudim. Meu Deus, que tortura!
Salinger é o único escritor que eu tenha lido que me faz brigar com a literatura e não ler nada por meses e meses. É tudo por amor, é claro, como se a própria Literatura me mostrasse seus esforços diários, sua superioridade em nossa relação e como eu não contribuo em nada (simplesmente porque não posso, jamais vou merecê-la e ela estaria muito melhor com um outro alguém). Eu odeio ler Salinger porque é bom demais. Existem outros escritores bons mas que se deixam ficar mais marcados pelo humor, pela leveza, pela concisão, escolha de palavras e outras técnicas do que simplesmente pela bondade do autor.
Eu terminei The Laughing Man que é, meu Deus, tão boa e eu preciso descansar. Eu conto quantas páginas tem a próxima história, penso, não vai dar. Saio do quarto e encontro a sala vazia, com exceção dos móveis normais, e escura (as cortinas são grossas demais) com a maior decepção de todos os tempos no rosto. Um cachorro vem me fazer festinha, agarro no colo, porque não tenho mais o que fazer. Olho para a pia, para o chão da cozinha e não há nada, coloco o cachorro no chão, decido comer pudim. Meu Deus, que tortura!
23.9.06
De repente, aquele creme de morango
O principal problema de tudo e todos é não haver telepatia. Eu acredito em telepatia. Pode acontecer com pessoas que têm uma conexão, nem precisa ser afetiva. Quando você diz o que pensa, muitas vezes, a maioria das vezes, por mais articulado que você seja, seu discurso não mostra com clareza o que você quer, e as pessoas não parecem entender tão facilmente. Como programas de decoração, você diz que gosta de andar de skate e então eles te desenham um skate imenso na sua parede e uma cama feita de skates e joelheiras grudadas nas paredes e coisas assim.
Morro de medo de que um programa de decoração venha aqui no meu quarto e descubra que eu gosto de Kill Bill e pintem as paredes de amarelo com faixas pretas ao redor do cômodo com borrifos de sangue pelos cantos, pequenos bonecos dos crazy-88 grudados nas pás do ventilador - eu não gosto assim de Kill Bill.
Lembro de um programa em que os apresentadores entravam na casa de alguém e olhavam seus livros e cds e pertences e, então, decidiam dar uma viagem pra pessoa com base no que viram. Por exemplo, se a pessoa coleciona grande quantidade de bonecas japonesas, eles a mandam para o Japão. Era um programa sem muito sentido, não passa mais. A pessoa ia pro Japão e voltava e o programa acabava.
Imagine alguém que goste muito de literatura russa, não exatamente da Rússia. Como explicar isso a alguém da produção do programa, aos apresentadores que se reuniram na frente das câmeras e decidiram que essa viagem seria perfeita.
Por isso que eu gosto do Queer Eye, não importa quem você seja, eles te dão uma tevê de plasma e um ipod e um laptop e clareador de dentes.
O mais importante na telepatia é conseguir comunicar o que nem mesmo você pode dizer para você mesmo, o que é impensável tentar transformar em discurso. Como seria a disposição da minhas futuras prateleiras (cujos itens jamais ficariam dispostos em ordem alfabética, mas de acordo com os tamanhos e as combinações das cores das lombadas dos livros e dvds e cds)? E outra pessoa meio que sabe, abstratamente, mas sabe.
Eu gosto de pedir, vez ou outra, que me tragam doces de presente, nada específico - doces são sempre lucro, não importa qual seja. Eu não tenho certeza exatamente do que tenho vontade de comer e não dou sugestões, não digo, "hm, pode ser um brigadeiro ou um quindim" (falando "quindim" mais animadamente) mas a pessoa acerta.
As pessoas pensam que precisam aprender a se comunicar melhor, a converter as emoções e os pensamentos nas palavras mais acertadas possíveis, mas o verdadeiro passo final para a evolução humana é não precisar dizer nada, absolutamente nada e, de repente, quindim.
Morro de medo de que um programa de decoração venha aqui no meu quarto e descubra que eu gosto de Kill Bill e pintem as paredes de amarelo com faixas pretas ao redor do cômodo com borrifos de sangue pelos cantos, pequenos bonecos dos crazy-88 grudados nas pás do ventilador - eu não gosto assim de Kill Bill.
Lembro de um programa em que os apresentadores entravam na casa de alguém e olhavam seus livros e cds e pertences e, então, decidiam dar uma viagem pra pessoa com base no que viram. Por exemplo, se a pessoa coleciona grande quantidade de bonecas japonesas, eles a mandam para o Japão. Era um programa sem muito sentido, não passa mais. A pessoa ia pro Japão e voltava e o programa acabava.
Imagine alguém que goste muito de literatura russa, não exatamente da Rússia. Como explicar isso a alguém da produção do programa, aos apresentadores que se reuniram na frente das câmeras e decidiram que essa viagem seria perfeita.
Por isso que eu gosto do Queer Eye, não importa quem você seja, eles te dão uma tevê de plasma e um ipod e um laptop e clareador de dentes.
O mais importante na telepatia é conseguir comunicar o que nem mesmo você pode dizer para você mesmo, o que é impensável tentar transformar em discurso. Como seria a disposição da minhas futuras prateleiras (cujos itens jamais ficariam dispostos em ordem alfabética, mas de acordo com os tamanhos e as combinações das cores das lombadas dos livros e dvds e cds)? E outra pessoa meio que sabe, abstratamente, mas sabe.
Eu gosto de pedir, vez ou outra, que me tragam doces de presente, nada específico - doces são sempre lucro, não importa qual seja. Eu não tenho certeza exatamente do que tenho vontade de comer e não dou sugestões, não digo, "hm, pode ser um brigadeiro ou um quindim" (falando "quindim" mais animadamente) mas a pessoa acerta.
As pessoas pensam que precisam aprender a se comunicar melhor, a converter as emoções e os pensamentos nas palavras mais acertadas possíveis, mas o verdadeiro passo final para a evolução humana é não precisar dizer nada, absolutamente nada e, de repente, quindim.
17.9.06
The horror, the horror
Com que tipo de pessoas andam os professores de ciências sociais? Muito mais importante, que tipo de pessoas andam com professores de ciências sociais? Quem são suas namoradas? Suas mães? Seria muito mais fácil acreditar que eles brotam do chão.
Imagine a cena do parto:
Doze horas de profunda dor para, enfim, um último empurrão e um, dois, três, quatro, cinco dedos nessa mão, cinco na outra, e cinco em cada pé também, mas as sobrancelhas das enfermeiras caem tristemente para os cantos das cabeças. O médico diz "Ele é saudável, mas é um professor de ciências sociais." E mostram um bebê com cabelo comprido, preso com um elástico e barbinha, ainda um pouco suja de sangue e cocô. O casal se abraça, aos prantos. Os avós vão visitar, com olhos vermelhos, dizendo "vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vocês podem tentar outras vezes". "Adoção", uma tia diz, "adoção é sempre mais seguro, você pode olhar pra criança e saber, você sabe..."
Imagine a cena do parto:
Doze horas de profunda dor para, enfim, um último empurrão e um, dois, três, quatro, cinco dedos nessa mão, cinco na outra, e cinco em cada pé também, mas as sobrancelhas das enfermeiras caem tristemente para os cantos das cabeças. O médico diz "Ele é saudável, mas é um professor de ciências sociais." E mostram um bebê com cabelo comprido, preso com um elástico e barbinha, ainda um pouco suja de sangue e cocô. O casal se abraça, aos prantos. Os avós vão visitar, com olhos vermelhos, dizendo "vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vocês podem tentar outras vezes". "Adoção", uma tia diz, "adoção é sempre mais seguro, você pode olhar pra criança e saber, você sabe..."
15.9.06
Banana Yoshimoto
Eu simplesmente precisava ler alguém chamada Banana Yoshimoto e escolhi "N.P.", romance sobre um livro amaldiçoado que mata todos que tentam traduzi-lo para o japonês - comprei pela história e pela Banana Yoshimoto (que nome excelente!).
É com grande pesar que digo a vocês que não é bom. Que o livro não rende um romance, talvez, um conto. Que repete a palavra "sky" inacreditavelmente, às vezes, no mesmo parágrafo (pode ser um problema de tradução, mas eu não acredito nisso, são muitas descrições de céu mesmo). Tem coisas interessantes, como relacionamentos incestuosos, mas não vale muito a pena.
Tristíssimo alguém se chamar Banana Yoshimoto e não ser a melhor escritora do mundo. É tudo questão de nome, de genes - tudo é previamente escolhido, seja por você ou por seus pais, antes de que se realize qualquer coisa.
Eu estava em um shopping, observando como as pessoas lá tinham rostos desinteressantes quando pensei que Quentin Tarantino jamais poderia estar destinado a outra coisa a não ser diretor de filmes, com aquele rosto. Banana Yoshimoto não ser sensacional é como um erro na Matrix. Seria possível batizar alguém de Scarlett Johansson sem pensar em volúpia, ou voluptuosamente? Como seria chamar a pequena Scarlett Johansson para se sentar quieta e amarrar os sapatos? Como seria pedir para o pequeno Quentin Tarantino fazer os exercícios de matemática?
Imagine Takeshi Kitano quando criança. Salinger. Chesterton. Chesterton não só conseguiu ter a escrita perfeita para seu tipo de corpo, como a materialização exata de qualquer expectativa que sua escrita gera no leitor ou mesmo o som do seu nome. CHEES-TERTOON.

É com grande pesar que digo a vocês que não é bom. Que o livro não rende um romance, talvez, um conto. Que repete a palavra "sky" inacreditavelmente, às vezes, no mesmo parágrafo (pode ser um problema de tradução, mas eu não acredito nisso, são muitas descrições de céu mesmo). Tem coisas interessantes, como relacionamentos incestuosos, mas não vale muito a pena.
Tristíssimo alguém se chamar Banana Yoshimoto e não ser a melhor escritora do mundo. É tudo questão de nome, de genes - tudo é previamente escolhido, seja por você ou por seus pais, antes de que se realize qualquer coisa.
Eu estava em um shopping, observando como as pessoas lá tinham rostos desinteressantes quando pensei que Quentin Tarantino jamais poderia estar destinado a outra coisa a não ser diretor de filmes, com aquele rosto. Banana Yoshimoto não ser sensacional é como um erro na Matrix. Seria possível batizar alguém de Scarlett Johansson sem pensar em volúpia, ou voluptuosamente? Como seria chamar a pequena Scarlett Johansson para se sentar quieta e amarrar os sapatos? Como seria pedir para o pequeno Quentin Tarantino fazer os exercícios de matemática?
Imagine Takeshi Kitano quando criança. Salinger. Chesterton. Chesterton não só conseguiu ter a escrita perfeita para seu tipo de corpo, como a materialização exata de qualquer expectativa que sua escrita gera no leitor ou mesmo o som do seu nome. CHEES-TERTOON.

Perfeição
Agora, alguém chamada Banana Yoshimoto destrói toda a ordem natural das coisas. De repente, pessoas chamadas Meirelles vão ser consideradas pessoas do cinema. Pff...
As pessoas já não respeitam os próprios nomes hoje em dia.
As pessoas já não respeitam os próprios nomes hoje em dia.
12.9.06
Kawaii
Para annebonny, feliz aniversário atrasado!
Dos vídeos mais inacreditavelmente fofos que já vi. Eu realmente, realmente, não sabia que gatos podiam ser assim tão fofos. Sei que dizer isso é como dizer, uau, como esse algodão-doce é doce!, mas surpresas podem acontecer, mesmo confirmando uma tese. Inacreditavelmente kawaii.
Dos vídeos mais inacreditavelmente fofos que já vi. Eu realmente, realmente, não sabia que gatos podiam ser assim tão fofos. Sei que dizer isso é como dizer, uau, como esse algodão-doce é doce!, mas surpresas podem acontecer, mesmo confirmando uma tese. Inacreditavelmente kawaii.
11.9.06
Minha generosidade capitalista
Comprei um livro chamado "I Am a Cat", de um escritor japonês chamado Soseki, que é, basicamente, uma compilação de contos com a perspectiva de um gato (japonês) sem nome. Eu conheço, pelo menos, três amigas que adorariam esse livro. Assim que vi a calotinha do livro na estante da loja, pensei em uma amiga, depois olhei a capa, mais uma e, depois li a traseira, mais uma.
Houve um tempo em que eu era muito mais generosa, mas era porque eu podia - em essência, eu ainda sou. Agora, se eu comprasse 4 "I Am a Cat" (um para mim, é claro), eu não compraria mais nada pelo mês todo. Nada. Nem um almoço no Spoletto.
Não existe outra forma econômica mais natural, de verdade, que combine tão bem com a minha generosidade, apesar do grande defeito (momentâneo) que tenho que é ter pouco dinheiro.
Nada justifica tão bem o capitalismo como passear pela Liberdade. Vi um futton lindo, lindo, azul-pálido com flores vermelhas. Nem perguntei o preço, mas ele está lá, para um dia, quem sabe.
Houve um tempo em que eu era muito mais generosa, mas era porque eu podia - em essência, eu ainda sou. Agora, se eu comprasse 4 "I Am a Cat" (um para mim, é claro), eu não compraria mais nada pelo mês todo. Nada. Nem um almoço no Spoletto.
Não existe outra forma econômica mais natural, de verdade, que combine tão bem com a minha generosidade, apesar do grande defeito (momentâneo) que tenho que é ter pouco dinheiro.
Nada justifica tão bem o capitalismo como passear pela Liberdade. Vi um futton lindo, lindo, azul-pálido com flores vermelhas. Nem perguntei o preço, mas ele está lá, para um dia, quem sabe.
7.9.06
Parabéns, Li!
Para a Li, que me conheceu no ambiente mais inóspito dos inóspitos e desde então tem feito dele muito mais agradável sendo minha amiga gorda, me ajudando com meu japonês e tentando encher meu casaco de pêlos daquelas luvas peludas, entre outras coisas, enquanto as outras pessoas normais discutem assuntos muito sérios e relevantes com grande propriedade e experiência, apesar do nosso longo e desgastante debate sobre pandas serem ursos ou não (que é muito sério e relevante [e é claro que pandas são ursos!]).
Alguns amigos grudam em você como velcro, outros com botões, outros com zíperes (sim, se olhar no seu ombro esquerdo, vai ver um zíper, não puxe, a Kim desgrudaria de você como se fosse o outro lado da jaqueta). Passei super-bonder em você.
5.9.06
3.9.06
Oof
Ando tendo probleminhas pra atualizar o Lady Snowblood com frequência, caso ninguém tenha notado (insira piadinha sobre "vasta gama de dois ou três leitores" aqui)
Ainda estou com dores no meu maldito braço direito, entre outras coisas mais debilitantes interneticamente falando, além de um pouco de falta de vontade e perspectiva.
Eu assisti Audition ontem, que é sobre, é claro, a forma budista de se encarar a dor, ou seja, com naturalidade e um pouco de prazer, sendo o prazer opcional, mas a dor naturalmente obrigatória. A primeira coisa que vou fazer com meus filhos assim que eles completarem qualquer idade de calcificação completa é colocá-los em barris e jogá-los montanha abaixo para explicar como o sofrimento existe, faz parte da vida e é mais ou menos conveniente para o aprendizado de uma série de coisas, inclusive, ver filmes e escrever sobre eles.
Sinto terrivelmente por ter tido uma criação católica, não pelos motivos de sempre, mas por causa da coisa do sofrimento. Acho Jesus super-duper e todos os santos e tal, mas sempre me ensinaram que a dor é uma coisa ruim e que eu posso viver sem ela - o que é mentira. Ninguém pode viver sem dor, e não é pra simplesmente conhecer o que é alívio, ninguém pode viver sem dor e quanto mais naturalmente poder viver com ela, melhor, sensacional.
Eu realmente acho que minha criação foi errônea toda vez que deram importância demais ao meu sofrimento - odeio a forma como crianças tropeçam bobamente e quinhentos parentes vêm em socorro e a criança chora por duas horas por algo que nem machucou até que dêem sorvete ou algo. Ao mesmo tempo - por isso, eu sou extremamente sensível e uso minha dor de forma errada, para ganhar sorvetes espirítuais e tal (isso tem muito a ver com a minha mãe, mas eu digresso).
Eu concordo com a forma japonesa. Uma amiga me contou que eles não costumam ter medo do escuro como nós, exploradores em terra estranha, porque desde criança, se eles acordassem os pais durante a noite pedindo para ir ao banheiro (que ficava fora e longe da casa, como uma típica casinha), os pais levavam a criança até o deque e a mandava ir sozinha - para enfrentar qualquer medo e conhecer sua própria casa. Mas é tão difícil.
Como eu posso lidar com meu sofrimento sendo 50% oriental e 50% ocidental?
Quando eu lia os contos tradicionais do terror japonês, "A Mulher da Neve" e tudo isso, eu me confortava antes de dormir pensando que esses espíritos jamais viriam atrás de mim porque não estou no Japão, não irritei nenhuma "entidade" japonesa e aqui não há neve, há sacis-pererê. Pessoas de origem européia que vivem em antigas colônias não têm exatamente um horror próprio, só medo de escuro e contos sobre deficientes físicos. Nada nos acompanha quando viajamos, a não ser medo de escuro e, talvez, catolicismo (dormi em um quarto, uma vez, em Portugal, com o retrato de uma santa sobre a cama que se refletia em um espelho na parede oposta e me observava deitada, eu tinha muitos pesadelos) e voltamos a sofrimento.
Ninguém pode comparar o próprio sofrimento ao sofrimento de Jesus na cruz e se você sofre é provavelmente sua culpa e você deve estar fazendo algo errado e assim que acertar, vai parar, graças a Deus.
É impossível acreditar que se possa viver sem dor assim como é impossível conseguir aceitar essa idéia sem, bom, sofrimento.
Escrevi demais porque estou, contra-gosto, em uma sala silenciosa cujo único som é o do ponteiro de segundos dando voltas no relógio. É terrível. Eu não posso dizer o quanto é terrível, ouvir só isso - como em Repulsion - e agora pouco, eu tapei meu ouvidos por alguns segundos na esperança de que desapareceria, mas, é claro, não desapareceu, então, eu escrevi. Então, você lê. Então, você discorda e diz que eu entendi errado os conceitos do budismo/catolicismo, que esqueci várias crases e preciso editar e vem mais sofrimento pra mim - mas pelo menos, o barulho do relógio fica sendo só de fundo. Eu poderia fazer bolhinhas com a boca, para me distrair. Ou aceitar o relógio. Jesus.
Quem ainda tem blog?
Ainda estou com dores no meu maldito braço direito, entre outras coisas mais debilitantes interneticamente falando, além de um pouco de falta de vontade e perspectiva.
Eu assisti Audition ontem, que é sobre, é claro, a forma budista de se encarar a dor, ou seja, com naturalidade e um pouco de prazer, sendo o prazer opcional, mas a dor naturalmente obrigatória. A primeira coisa que vou fazer com meus filhos assim que eles completarem qualquer idade de calcificação completa é colocá-los em barris e jogá-los montanha abaixo para explicar como o sofrimento existe, faz parte da vida e é mais ou menos conveniente para o aprendizado de uma série de coisas, inclusive, ver filmes e escrever sobre eles.
Sinto terrivelmente por ter tido uma criação católica, não pelos motivos de sempre, mas por causa da coisa do sofrimento. Acho Jesus super-duper e todos os santos e tal, mas sempre me ensinaram que a dor é uma coisa ruim e que eu posso viver sem ela - o que é mentira. Ninguém pode viver sem dor, e não é pra simplesmente conhecer o que é alívio, ninguém pode viver sem dor e quanto mais naturalmente poder viver com ela, melhor, sensacional.
Eu realmente acho que minha criação foi errônea toda vez que deram importância demais ao meu sofrimento - odeio a forma como crianças tropeçam bobamente e quinhentos parentes vêm em socorro e a criança chora por duas horas por algo que nem machucou até que dêem sorvete ou algo. Ao mesmo tempo - por isso, eu sou extremamente sensível e uso minha dor de forma errada, para ganhar sorvetes espirítuais e tal (isso tem muito a ver com a minha mãe, mas eu digresso).
Eu concordo com a forma japonesa. Uma amiga me contou que eles não costumam ter medo do escuro como nós, exploradores em terra estranha, porque desde criança, se eles acordassem os pais durante a noite pedindo para ir ao banheiro (que ficava fora e longe da casa, como uma típica casinha), os pais levavam a criança até o deque e a mandava ir sozinha - para enfrentar qualquer medo e conhecer sua própria casa. Mas é tão difícil.
Como eu posso lidar com meu sofrimento sendo 50% oriental e 50% ocidental?
Quando eu lia os contos tradicionais do terror japonês, "A Mulher da Neve" e tudo isso, eu me confortava antes de dormir pensando que esses espíritos jamais viriam atrás de mim porque não estou no Japão, não irritei nenhuma "entidade" japonesa e aqui não há neve, há sacis-pererê. Pessoas de origem européia que vivem em antigas colônias não têm exatamente um horror próprio, só medo de escuro e contos sobre deficientes físicos. Nada nos acompanha quando viajamos, a não ser medo de escuro e, talvez, catolicismo (dormi em um quarto, uma vez, em Portugal, com o retrato de uma santa sobre a cama que se refletia em um espelho na parede oposta e me observava deitada, eu tinha muitos pesadelos) e voltamos a sofrimento.
Ninguém pode comparar o próprio sofrimento ao sofrimento de Jesus na cruz e se você sofre é provavelmente sua culpa e você deve estar fazendo algo errado e assim que acertar, vai parar, graças a Deus.
É impossível acreditar que se possa viver sem dor assim como é impossível conseguir aceitar essa idéia sem, bom, sofrimento.
Escrevi demais porque estou, contra-gosto, em uma sala silenciosa cujo único som é o do ponteiro de segundos dando voltas no relógio. É terrível. Eu não posso dizer o quanto é terrível, ouvir só isso - como em Repulsion - e agora pouco, eu tapei meu ouvidos por alguns segundos na esperança de que desapareceria, mas, é claro, não desapareceu, então, eu escrevi. Então, você lê. Então, você discorda e diz que eu entendi errado os conceitos do budismo/catolicismo, que esqueci várias crases e preciso editar e vem mais sofrimento pra mim - mas pelo menos, o barulho do relógio fica sendo só de fundo. Eu poderia fazer bolhinhas com a boca, para me distrair. Ou aceitar o relógio. Jesus.
Quem ainda tem blog?
1.9.06
Baby Murderer
De certa forma, sinto falta da ditadura. Não porque era uma época tão romântica, mas porque eu queria continuar batendo nos estudantes e comunistas em geral.
Eu tenho um jaqueta excessivamente militar. Segunda Guerra. Très chic! Velhinhos me olham suspeitamente nas ruas. Não sei porque, porque parece uma jaqueta de aliado, não de nazista - é um sonho, um paletó nazista, botas nazistas, todo aquele glamour.
Tenho duas jaquetas militares, na verdade. A outra é mais Vietnam. Se eu andasse nas ruas, naquela época, iriam me chamar de baby murderer, baby rapist. Extremamente emocionante.
Estou lendo Decline and Fall, do Evelyn Waugh. Primeiro romance, curtíssimo, que seria possível ler em uma hora, mas eu prolongo a coisa toda, como ensina o tantra.
Meu braço direito está me incomodado demais, de forma que é doloroso ficar no computador. Não é bem no braço, mas na parte de trás dos ombros, onde alguém puxaria meu braço, caso quisesse arrancá-lo. Não sei porque dói, mas jamais seria má postura. Tenho uma postura sensacional.
Comprei um livro de entrevistas do Truffaut, invejo muito como ele se expressa tão bem, eu jamais daria boas entrevistas. Gosto das opiniões também. Uma parte, mais especificamente, me fez dar um abracinho espiritual nele (e desejar ter visitado seu túmulo em Montmartre) sobre como ele cortou uma cena porque era gratuitamente bonita.
Olá.
Eu tenho um jaqueta excessivamente militar. Segunda Guerra. Très chic! Velhinhos me olham suspeitamente nas ruas. Não sei porque, porque parece uma jaqueta de aliado, não de nazista - é um sonho, um paletó nazista, botas nazistas, todo aquele glamour.
Tenho duas jaquetas militares, na verdade. A outra é mais Vietnam. Se eu andasse nas ruas, naquela época, iriam me chamar de baby murderer, baby rapist. Extremamente emocionante.
Estou lendo Decline and Fall, do Evelyn Waugh. Primeiro romance, curtíssimo, que seria possível ler em uma hora, mas eu prolongo a coisa toda, como ensina o tantra.
Meu braço direito está me incomodado demais, de forma que é doloroso ficar no computador. Não é bem no braço, mas na parte de trás dos ombros, onde alguém puxaria meu braço, caso quisesse arrancá-lo. Não sei porque dói, mas jamais seria má postura. Tenho uma postura sensacional.
Comprei um livro de entrevistas do Truffaut, invejo muito como ele se expressa tão bem, eu jamais daria boas entrevistas. Gosto das opiniões também. Uma parte, mais especificamente, me fez dar um abracinho espiritual nele (e desejar ter visitado seu túmulo em Montmartre) sobre como ele cortou uma cena porque era gratuitamente bonita.
Olá.
