Million Dollar Kiss: 10/01/2006 - 11/01/2006
The Ego's Last Stand.

31.10.06

Um lhasa apso chamado Sofia

Um dos problemas da literatura amadora é que os praticantes fazem o caminho inverso. Escrevem sobre o que há ao redor antes de se rodearem de bons elementos verdadeiramente fictícios. Sempre que vejo a possibilidade de conhecer alguém que possa ser importante na minha vida e que tenha um nome estranho, tipo Giuseppe Garibaldi ou Greta Skrum, penso no suposto romance da minha vida - como deve estar ficando interessante!
Pouca gente pode escrever sem ter visitado Harajuku ou, pelo menos, conhecido alguém de lá.
Não faz sentido escrever sem realmente ter presenciado o trágico suicídio de uma francesa chamada Christine Darbon que atirou-se da ponte Alexandre III caindo no Sena, depois de ter sido profundamente assolada pela culpa de três homicídios, todos crimes do coração.
A vida não serve de muito para livro sem um buldogue chamado Cletus.

28.10.06

"Encaro meus pacientes como telas em branco," diz Beatrice Baldasarre em entrevista para Paolo Desiderio

Para Alexandre, obrigada pelos dois anos.

As famosas irmãs-trigêmias-prodígio da família Baldasarre, Beatrice, 11, Chiara, 11, e Dafne, 11, têm todas, e sempre tiveram, como principal interesse a medicina cosmética.

Beatrice, formada com a idade recorde de 8, executa as mais complicadas cirurgias, casos gravíssimos vindos de todo o mundo, desde então. Sua primeira cirurgia foi a de um nariz alemão, enormíssimo, com doze centímetros apenas de raio, em apenas uma das narinas.

Beatrice fez um trabalho inovador, que ainda é comentado em todas as revistas e todos os jornais como "excelente!" e "assombroso!" e "alegrinho!". O processo de Beatrice se consistiu em cola líquida, glíter e estrelinhas.

Assim, seguiram os trabalhos de Chiara e Dafne (que ainda vêm se especializando, especialmente, em implante capilar). Muitas vezes, as caçulas trabalham em time:

- Preto ou marrom? - pergunta Chiara, tentando colocar luvas de borracha nas mãozinhas.
- Marrom, definitivamente. - responde Dafne, sentada em listas telefônicas, que se sentam em um banquinho médico, dobrando as mangas muito compridas do jaleco.

Chiara pede à enfermeira o "marrom número 2", que vai prontamente buscá-lo na bandejinha metálica repleta de lápis de cor, giz de cera, papel de origami, etc.. A enfermeira estende duas canetinhas por cima da maca. Chiara fica com uma, destampando-a com a boca e cuspindo a tampa na testa do anestesista. Dafne recebe a outra das canetinhas, enquanto brinca com as bochechas do paciente com a outra das mãos.

Todos que acompanham o procedimento nas distantes cabines, grudam os narizes nos vidros protetores e dizem, boquiabertos, "genial", "que graça!" e "ouun!"

Os mais importantes médicos e professores, de Berlin à Hong Kong, estão todos muito estupefatos e dizem, todos, entusiasmados, que as possibilidades para a família Baldasarre são infinitas e também "muito bonitas".

26.10.06

Proposta para filme

Gael García Bernal é Ernesto "Che" Guevara passando férias na península de Izu, no Japão. Lá, ele se depara com uma estranha fita de vídeo com imagens enigmáticas. Logo após ter assistido ao filme, seu telefone toca. Uma voz arrepiante de criança é ouvida do outro lado da linha:

- Seven days, maricón.

Ernesto "Che" Guevara precisará decifrar o significado por trás das perturbadoras cenas que acabara de presenciar para impedir que a maldição siga adiante. Ele faz uma cópia do vídeo e mostra a um colega leproso que, também recebe a mesma ligação, e passa a ajudá-lo com a investigação, mas eles precisarão se apressar.

22.10.06

Lady Snowblood

Oof! Meu blog de cinema/televisão, Lady Snowblood, está decentemente reformado, pintado e decorado. Espero que gostem.

*

Obrigada, Ulisses e Jeferson.

21.10.06

So desu ne

Acredito que 60% das 30 pessoas que me visitam sabem quem eu realmente sou. 10% até devem me conhecer pessoalmente.

Para quem não sabe: Eu tinha um blog quando mais nova, uns cinco ou quatro anos atrás. Teve um sucesso relativo. Por inúmeros motivos, inclusive não gostar mais do título do blog, decidi terminar com ele.

Muitas coisas aconteceram.

Comecei e larguei cursos, namorados, saí do Brasil por adoráveis duas semanas, voltei, me tornei obcecada pelo Japão e uma porção de cineastas e escritores não necessariamente japoneses e também me tornei, em geral, uma pessoa melhor (pelo menos, em questão de gosto). Eu ainda não sei muito bem como lidar com aquilo que gosto, mas tenho certeza do que não gosto.
Escrever como "Nico Hideyo" me ajudou a me afastar de assuntos muito pessoais - porque eu não queria que ninguém me "descobrisse" - o que é bom, porque dá pra escapar um pouco da idéia de um blog de adolescente.

Eu não sou mais adolescente, mas, um pouco jovem ainda. Tenho 20 anos. É uma idade esquisita. Se eu morresse agora, não seria como morrer com 16. Claro que achariam que eu era muito nova, mas não seria tão trágico como se fosse aos 16 - quando uma criança morre aos 8 anos, digamos, é sempre uma tragédia, mas é como se ela nunca tivesse tido perspectiva de qualquer contato real com a vida, como se ela não tivesse chegado nem perto - o que me faz ir me acostumando com a idéia.

Por um tempo, eu acreditei que meu nome trazia má sorte. Não tenho certeza ainda, vamos ver.

Se houver algum problema de adaptação, podem continuar me chamando de Nico.

20.10.06

Eu sonhei com Takeshi Kitano

Era uma espécie de Lost In Translation, só que com o Takeshi Kitano. Ele tinha vindo ao Brasil para algum compromisso profissional. Encontrei-o perto do meu armário (mas não era meu quarto) e fui falar com ele:

- ... Igirisujin? Não,Igirisugo...?
- ... - ele parece não me entender.
- Do you speak...?
- Claro!

E, então, saímos conversando em português, andando de mãos dadas, rindo e se divertindo, até que alguma secretária teve de levá-lo. Foi um dos momentos mais tristes da minha vida.

12.10.06

Promiscuidade

Não sei porque as pessoas não se envergonham ao falar sobre como queriam visitar tais e tais países, ou como nenhuma mulher estranha não dá um tapa no rosto de um sujeito se, durante o almoço, em lugar público e repleto de crianças, ele começar a se gabar aos amigos, em voz alta, por ter visitado Portugal - imagine se mudar para lá, que pervertido!
Nascer em um país é, infelizmente, mais significativo do que casamento. Sua nacionalidade é algo que, na verdade, jamais poderá se separar de você, nem mesmo através da morte. Além de contar que tipo de pessoa você é, também dita a sua cor de cabelo, sua cor de pele, olhos e comida preferida - não há pão de queijo em Paris, um pequeno defeito horrível, como uma pinta no nariz de Greta Garbo. Visitar outros países é como flertar com estranhos.
Mudar-se, então, é um caso mais estabelecido, um casamento não reconhecido porque nasceu da traição. Morar em diversos países é poligamia e eu reconheço que tenho luxúria em meu coração. Quanta dor olhar para as fotos dos exs... Aqui, Lisboa, aqui, Lyon e, aqui, Veneza. E me perguntam, em conversas muito íntimas e secretas, qual eu prefiro e digo que não sei, não sei, todos!, juntos!, de uma só vez! - que vergonha!
Querer morar em Roma, Madrid, Lhasa ou Amsterdã é como querer Scarlett Johansson, Jessica Alba (antes de emagrecer), Angelina Jolie (antes de ficar chata), Uma Thurman (dez anos atras) etc.. Quanto desejo! E quanta dor! Mas como eu faria com os meus cachorros? Eles sofrem tanto em viagens de avião...
Detesto o namorado da Scarlett Johansson como detestaria qualquer um que tivesse ido até Tóquio, ou, pior, nascido lá. Malditos japoneses.
Ver fotos de Paris é como ver o ensaio de Scarlett Johansson para a Esquire. É tão lindo e doloroso. Por que minha cidade não pode ser assim? Por que eu não posso ser assim? Por que é tão inatingível? Oh, como são queridos! Paris e Scarlett.
Em minha defesa, como não trair meu país? Digo, como não trair tendo se casado com, sei lá... (Pensei em diversos nomes horríveis, mas mencioná-los aqui seria como pichar a parede do meu prórpio quarto. Vou em algum blog inimigo e comento furiosamente R_GIN_ C_SÉ!!!)
Talvez o Brasil seja a Gisele Bündchen de algum estrangeiro, mas eu aviso: Não é, não é.

5.10.06

Ficar velho é, aos poucos, substituir o medo de decepcionar as pessoas pelo medo das pessoas que decepcionam. A velhice plena de espírito é essa, parar de pisar na embreagem totalmente e ir direto pro acelerador. Eu não tenho mais tempo pra me preocupar se estou decepcionando pessoas não-importantes, portanto, páro.
Talvez seja reflexo, talvez seja porque os efeitos de ter passado uma vida inteira tendo medo de decepcionar sejam ainda mais decepcionantes quando finalmente se descobre o quanto as pessoas podem ser decepcionantes e que todo aquele esforço era desnecessário - ou elas perceberam isso antes, eu não sei. O importante é abraçar todo o conceito de decepcionamento.
Acabei de fazer uma piada no MSN que eu SEI que a pessoa não vai entender. Ó lá. Viu? Estou bem.

4.10.06

Mamma

"Mamma stayed all night in my room, and it seemed that she did not wish to mar by recrimination those hours, so different from anything that I had had a right to expect; for when Francoise (who guessed that something extraordinary must have happened when she saw Mamma sitting by my side, holding my hand and letting me cry unchecked) said to her: "But, Madame, what is little Master crying for?" she replied: "Why, Francoise, he doesn't know himself: it is his nerves. Make up the big bed for me quickly and then go off to your own." And thus for the first time my unhappiness was regarded no longer as a fault for which I must be punished, but as an involuntary evil which had been officially recognised a nervous condition for which I was in no way responsible: I had the consolation that I need no longer mingle apprehensive scruples with the bitterness of my tears; I could weep henceforward without sin.
I felt no small degree of pride, either, in Franchise's presence at this return to humane conditions which, not an hour after Mamma had refused to come up to my room and had sent the snubbing message that I was to go to sleep, raised me to the dignity of a grown-up person, brought me of a sudden to a sort of puberty of sorrow, to emancipation from tears. I ought then to have been happy; I was not. It struck me that my mother had just made a first concession which must have been painful to her, that it was a first step down from the ideal she had formed for me, and that for the first time she, with all her courage, had to confess herself beaten. It struck me that if I had just scored a victory it was over her; that I had succeeded, as sickness or sorrow or age might have succeeded, in relaxing her will, in altering her judgment; that this evening opened a new era, must remain a black date in the calendar."


Eu sei que é um grande bloco de texto e que já não basta ser cansativo para os olhos e o corpo todo ler através de uma tela de luz, provavelmente em uma mesa, talvez corporativa, e não na sua cama ou na sua poltrona favorita, como também está em inglês e nem todos meus amigos lêem em inglês, mas vale a pena, mesmo que não se entenda completamente.
Essa parte de Swann´s Way, de Proust, que ainda estou lendo através do Dailylit, serve à minha defesa mais dificil de ser feita. Explicar como escritores, ou autores, em geral, deprimidos e/ou líricos, poéticos me dão nos nervos - a opção por termos "fortes", idéias melodramáticas, dramáticas, trágicas (eu nunca soube bem qual a diferença formal entre elas, de qualquer forma) etc.
Toda boa pessoa já teve depressão de algum tipo, nem que durasse por apenas um dia, das duas da tarde às três e meia, talvez. Essas pessoas se dividem naquelas que têm orgulho disso, de ter passado ou estar passando por isso, pois seriam especiais e vêem algo que o resto do mundo não vê, como a vida é horrível e tudo mais, e naquelas que têm vergonha de se darem tanta importância (mas vergonha verdadeira, que faça com que você não conte a ninguém, porque a vergonha pode ser muito conveniente e a conveniência pode ser muito nojenta).
Depressão é uma crise pessoal, é egocêntrica, mas egoísta, ela afeta outras pessoas ao seu redor. Se você escreve como uma pessoa deprimida, você não é uma boa pessoa. Simples assim.
Se algum dia, eu fiz meu pai chorar por causa da minha tristeza aleatória, eu não fui uma boa pessoa.
A escrita, assim como tudo, é a afirmação de quem você é, sem necessariamente contar quem você é, mas como você trata aos outros, como você lida com tudo. Toda vez que sinto vontade de fazer comentários negativos em blogs amigos, me contenho imaginando o tempo que ele/ela levou para escrever sobre aquilo, penso na sua bondade genuína em achar que interessaria a outros e, por isso, estão lá, dispostos.
Escrever com leveza, com preocupação estética, consideração, humor revela nada menos do que bom caráter.
Recentemente, não pude terminar de ler um texto em um blog não-amigo porque me enojava. Ele teve o mesmo trabalho, talvez mais, do que o blog-amigo, de escrever aquilo, mas era de um egotismo e de uma auto-comiseração absurda, além de ser simplesmente ruim, as palavras, as analogias. Aquilo é pura depressão. Não merece leitores porque não foi escrito pensando neles, ou, mudemos a palavra "leitores", que podem ser bastante decepcionantes também, para, digamos, "pessoas queridas". Aquilo não foi escrito nem mesmo para a mãe do autor do blog não-amigo; a deixaria enormemente triste - e que tipo de pessoa é essa?
Pior do que apenas escrever assim e deixar tudo à mostra, é o orgulho. Ele sente orgulho e espera reconhecimento. "Nunca vi pessoa mais triste" e seria sua realização.