Tive uma epifania ontem à noite enquanto cortava um pedaço de queijo meia-cura. Assim que voltei para o quarto, me esqueci de tudo. Desliguei a televisão, fechei os olhos, fiz o truquinho que faço para me lembrar das coisas - que eu não contarei como é - e, depois de tempo suficiente para eu duvidar da minha técnica, me lembrei.
No caminho da cozinha, que faz um "L" ao redor da mesa de jantar, tem um espelho na menor reta do "L" e um cachorro dormindo com a barriga pra cima na maior reta do "L", mas o cachorro não é relevante no momento. Porque mudei o meu cabelo recentemente, estou constantemente me olhando nos reflexos das coisas, tentando gostar - pausei para desligar a Sandra Bullock. Em busca do queijo meia-cura, me olhei mais uma vez e, assim como os lóbulos das minhas orelhas são muitos mais visíveis com esse corte, vi as verdades da minha vida muito mais claramente.
Tenho a impressão de que epifanias são, ou deveriam ser, excitantes, mas, além da descoberta de algo tão correto e jamais considerado, não há nada de muito interessante sobre a revelação em si, me desculpe. Não é uma epifania particularmente triste ou uma epifania alegre, talvez não seja uma epifania de forma alguma, mas, ontem à noite, era isso: Eu quero continuar a viver pra ver como meu cabelo vai ficar.
Algumas pessoas vivem porque acreditam que têm uma missão, outras porque nasceram e não sabem o que fazer a partir daí. Não desconsidero nenhuma das outras possibilidades - eu adoraria ter uma missão, eu provavelmente sou grata por ter nascido porque, do contrário, eu não poderia ser grata de qualquer forma - mas acho que o que vai me movimentar pelos anos não são os filmes, os livros, as pessoas e nem mesmos os cachorros, mas a espera pelo crescimento do meu cabelo e as inúmeras tentativas, nem sempre de sucesso, de se fazer o melhor possível.
Se eu tivesse mais dinheiro e insight para lidar com roupas, eu diria que vivo, que existo, porque quero saber o que vou estar usando em cinco anos - será que vou ter o cabelo comprido de novo? - e a espera de que seja fabuloso preenche meu coração de esperança e alegria, mas tenho de ter paciência e esperar. Apenas o tempo dirá.
Acho que pode funcionar assim, digo, a vontade de viver.
Existiram e existirão momentos terríveis, sofreremos grandes perdas, mas precisamos persistir, para ver a maquiagem em dez anos, impedir que a coisa do bolero volte - pronto, uma missão!
Estou resolvendo toda a questão do existencialismo, via futilidade - nem penso que seja "futilidade", mas uma preocupação nobre, uma vontade sincera, uma tentativa heróica de proporcionar algo que é tão escasso hoje em dia, ou seja, beleza.
A frequente tentativa da Beleza é uma das muitas formas de manter-se bom, digno e enaltecer o espírito - eu acredito que exista algum monastério em que os monges só discutem moda e atingem os mais elevados graus de bondade, generosidade e super-poder über chic. Algumas pessoas têm noções completamente errôneas sobre moda, mas Trinny, Susannah e eu podemos guiá-las para o caminho da iluminação enquanto nós mesmas seguimos nossas jornadas humildemente, experimentando cores outonais.
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