Million Dollar Kiss: 03/01/2008 - 04/01/2008
The Ego's Last Stand.

29.3.08

Nordestern

Um cara me disse, uma vez, que preferia Cidade de Deus ao The Untouchables. Respondi que em The Untouchables as pessoas usavam camisas e sapatos, sem falar nos casacos e nas gravatas, e que isso era um sinal óbvio de superioridade. Fico impressionada com a velocidade que o Canal Brasil me faz rir. Passei pelo Canal Brasil e, juro, em menos de um segundo, ele me fez rir. Algum ator canastrão dos anos 60 conversando com alguém, a imagem bem ruim, e eu só ouvi ele dizendo "eu te tornei IMOR-TAL" e ri de acordar os cachorros. Nem precisa de contexto, não é uma piada que precisa ser construída aos poucos, é incrível. Todo comediante deve invejar esse poder natural que o cinema brasileiro tem de fazer rir, sem esforços.
No final de um filme brasileiro horrível (pleonasmo) chamado Cidade Baixa, tem uma cena de luta, nay, briga, nay, chinelada - porque "luta" e "briga" remetem a Jackie Chan, Jet Li e coisas imensamente mais legais do que as rugas da testa da Fernanda Montenegro ou o olhar cheio de culpa burguesa do Walter Salles. O que eu entendi era isso: Tinha essa garota prenha (de Luís Carlos Prestes?) e ela saía com dois baianos, um aquele gay lá do Madame Satã, e o outro familiar porém obviamente apagado de qualquer memória e os dois tinham essa briga muito emocional e dramática lá porque, pô, é difícil ser pobre. Morri de rir. Eles rolam umas ladeiras, uns baianos não-atores (são mais feios) ficam olhando com cara de "ih, eita, tão filmando" e eu fico torcendo para os dois se machucarem e gosto quando um deles bate a cabeça num degrau. Ah, era a pior maquiagem de sangue que já vi também. Jesus Cristo, não é tão difícil fazer um machucado falso.
Tudo no filme parecia ter o propósito de ser mal feito, nenhum zoom tinha foco, nenhuma cena tinha um enquadramento decente (mais natural, né?) e a câmera tremia quando a garota prenha começou a chorar, limpando os machucados dos dois caras, que também ficam chorando - juro, esse é o final do filme. Por que esse empenho em ser ruim assim? Se pelo menos fosse uma coisa meio Ed Wood e colocassem aliens, vampiros, capivaras assassinas, o que seja.
Toda cinematografia brasileira se beneficiaria de zumbis. Imagine. Central do Brasil com zumbis. A Fernanda Montenegro viaja com o garoto lá, mas eles são atacados por uns jagunços zumbis analfabetos, ela é mordida e ele tem de executá-la com uma calangada na cabeça. Genial!

24.3.08

Myrna Loy

Quando eu era criança, achava que uma das coisas mais glam do mundo era organizar uma reunião social em que os convidados chegassem casualmente e ficassem à vontade pelos cômodos da casa, como um jantar final de um livro de mistério. Não era necessariamente uma festa, ou mesmo um jantar, poderia ser um chá, mas o objetivo principal era ter a casa mais habitada do que o normal (digamos, umas 2.8 pessoas por cômodo) e essas pessoas se divertiriam calmamente, utilizando seja lá o que a casa pudesse oferecer.
Por exemplo, em aniversários conjuntos com o meu irmão, minhas amigas poderiam ficar comigo e os meus brinquedos no meu quarto, enquanto os amigos do meu irmão ficariam no quarto dele jogando video game, mas as pessoas poderiam ir e vir como quisessem. Lembro de uns três garotos que ficaram semi-entretidos com a bíblia que tinha na sala de estar. Não importa o que façam, desde que fiquem à vontade. Eu me esforçava terrivelmente pra deixar todo mundo à vontade, o que provavelmente deve ter deixado alguém nervoso. Em um momento de dança lenta, eu ligava uma lâmpada azul e ficava mexendo no volume como se fosse uma mesa de dj - alguns mandavam eu parar com isso, o que eu podia obedecer ou não.

[Mudando brevemente de assunto, minha memória escolhe eventos aleatórios para eu gravar com todos os detalhes para todo o sempre. Fizemos um amigo-secreto na terceira série e a entrega de presentes foi em casa. Ganhei um cachorro marrom de pelúcia. Na hora da dança lenta, lembro exatamente o momento em que os meninos estavam tentando descobrir quem dançaria com quem e disseram para o Thiago, um garoto loiro com a cabeça mais redonda que eu já vi, para dançar comigo. Ele olhou para mim e eu vi em seus olhos todo o processo da coisa, ele ir do "hm, é uma possibilidade" ao "nhéé, melhor não"]

Por anos, tentei fazer uma festa em que tudo corresse bem, mas, quase sempre alguém brigava com outra pessoa, alguém aparecia de patins, se machucava, alguma coisa quebrava ou era arruinada para todo o sempre. Infelizmente, eu queria fazer essas coisas no meu aniversário e depois de tantas reuniões frustradas, passei a ter terror com relação a data e fui desistindo completamente de algo parecido em qualquer época do ano. Desde então, sou uma crítica amargurada de eventos sociais.
Já no segundo colegial, meu grupo ficou de ir assistir algum filme na casa de uma menina - depois da sétima, oitava série, eu nunca mais ofereci minha casa pra nada desse tipo - e levaram aquele em que o Denzel Washington ganhou o Oscar, com o Ethan Hawke. Escolha totalmente equivocada. Não importa se o filme é bom, não é para se ver em grupo - comédias e filmes de terror seriam mais apropriados.
Hoje em dia, acho que todos problemas seriam resolvidos por uma quantidade moderada de álcool.

22.3.08

Lady Vengeance

Ugly Betty é uma das melhores coisas que apareceu na tevê recentemente, juro. É um seriado com a perspectiva de uma garota feia e inteligente mas que, mesmo assim, é pró-moda. Depois de sei lá quantos episódios sendo mal tratada na editora de revista de moda, ela vai trabalhar com um bando de garotas feias e inteligentes só pra descobrir que as garotas feias e inteligentes de lá são um bando de gordas traiçoeiras e que preferia o pessoal de moda porque pelo menos eles eram sinceros quando a tratavam mal.
Em um dos últimos episódios que vi, a Betty ganha uma bolsa de marca de uma amiga costureira/designer que trabalha na revista. A amiga diz que acha que a moda pode ajudar as pessoas a se sentirem bem e a Betty sai toda contente com a bolsa nova. Depois, ela tem de vender a bolsa pra pagar o remédio do pai, mas diz que realmente se sentia bonita com ela e ninguém, absolutamente ninguém fala nada de beleza interior, inteligência, garra, aleluia. Aliás, sempre que a Betty menciona sua falta de beleza, ninguém tenta reconfortá-la dizendo que ela tem olhos bonitos ou um sorriso contagiante, só mudam um pouco de assunto.
Quem fala mal do consumismo, do capitalismo, o que seja, não pode ter tido brinquedos quando criança e provavelmente nunca deu um bom presente, o presente perfeito pra ninguém ou pra si próprio - bons cortes de cabelo ajudam muito. Se eu tivesse mais dinheiro, passaria um bom tempo do meu ócio milionário investigando qual seria o presente perfeito para essa ou aquela pessoa, aquilo que mudaria tudo por pelo menos uns seis meses. Bolsas podem fazer isso, mudam o humor e provocam sorrisos constantes e inexplicáveis por um bom período de tempo se forem combinadas perfeitamente com as almas, as almas!, das donas. E o mesmo vale para sapatos, casacos, blusas... - não é maravilhoso?
Acho que todos esses ramos do saber supostamente supérfluo como moda, decoração, design gráfico, artes plásticas, etc., são os grandes responsáveis pela paz de espírito, o amor ao próximo e tudo mais. Ao contrário do que a maioria dos filmes e séries falam sobre moda e aparência, nenhuma pessoa que seja realmente bonita pode ser muito mesquinha. Ser bonita, em si, já é uma atitude generosa. Qualquer esforço nesse sentido, em fazer coisas bonitas e mesmo ser bonito, deveria ser visto como algo nobre de se fazer.