Million Dollar Kiss: 02/01/2009 - 03/01/2009
The Ego's Last Stand.

24.2.09

Over Nerves

Estou um pouco grogue de remédios lícitos e muito fraquinhos pra dormir, uma coisa boba mesmo, só pra relaxar meus músculos na hora de deitar - desenvolvi uma tendinite horrível nas últimas semanas e passei um tempo considerável estirada no chão, olhando para o teto, com os braços congelados e pulsos lambuzados de diclofenaco, etc... Quero escrever um pouquinho assim porque gosto dessa sensação. Acho que as pessoas ganhariam muito conversando somente quando levemente embriagadas, medicadas ou abobadas pela falta de sono, etc.. A mente fica leve e areada como um Sufflair, o corpo fica pesado como uma pilha de cobertores, como beber dois copos inofensivos de cerveja bacana quando se é uma garota, uma existência leve, doce porém consistente e peludinha. Mas o melhor dessas ocasiões é que algumas bobeiras são perdoáveis aqui e ali graças à situação toda de experiência dentro do corpo. Você sabe que eu não escreverei/escrevi isso com muito cuidado e tô só, sei lá, puxando assunto enquanto espero pela inconsciência completa. Acho isso tudo muito simpático, não?
Mas então. Eu até queria poder explicar de uma forma que não parecesse que eu assisto seriados demais ou leio muito em inglês e não sei converter meus pensamentos para o português porque, pff, quando que meu português vai ser estimulado o enriquecido com expressões que expliquem perfeitamente o que penso? Não faço idéia de como traduzir aquilo de "nerves got the best of him" e, sinceramente, não vou me esforçar muito. Não importa como seria dito em português, o que sei que sou uma dessas pessoas que os nervos tomam o que há de melhor em mim. Quer dizer, eu sou nervosa. O nervosismo já tomou meu estômago, minha cabeça, minha coluna, meus músculos, minha dieta, meus hormônios, meus nervos, dã.
Gosto da expressão em inglês porque ela é positiva, sugere que se não fosse pelo nervosismo, tudo seria ótimo, que existe pelo menos existe um best para os nervos tomarem/ofuscarem, que falta apenas confiança, coragem e pronto, um best livre, uma excelência espartana. Eu não sou tão insegura a ponto de duvidar que eu sou, na verdade, muito legal, mas de tempos em tempos a dúvida funciona como defesa. Se duvido, a improvável porém possível queda não doeria tanto.
O que mais me deixa nervosa, na verdade, é o meu nervosismo. Eu sofro por antecipação, imaginando quão nervosa eu vou ficar e já fico nervosa com o meu futuro nervosismo que com certeza fará brotar sintomas psicossomáticos em meu corpo e mente como coreanos na Coréia. De antemão, eu sei de cor quantas noites eu não dormirei, quantas vezes eu vou chorar, ter crises de gastrite ou seja lá o que for, como uma Cassandra que prevê as próprias espinhas - oh, me perdoem, estou mais pra lá do que pra cá.
Há a teoria de que se não fosse o nervosismo do meu nervosismo eu já estaria fazendo grandes coisas, mas essa teoria só me deixa ainda mais nervosa e impaciente. Entre "querer é poder" e "não é pra quem quer mas pra quem pode", sempre preferi "não é pra quem quer". Me parece uma justiça divina, uma provisão que independe do meu medo, da minha insegurança. Se posso, as coisas acontecem, quando forem acontecer. Essa é outra teoria.
Enfim. Eventualmente acho que vou ter de canalizar meu nervosismo (especialmente aquele direcionado mais aos outros) em alguma outra coisa como aikido ou, sei lá, ikebana só para não desmaiar de raiva no meio da rua. Essas coisas acontecem e me matam de medo.

15.2.09

Horrorshow

Esses dias, terminei de ler "Kafka on the Shore" do Haruki Murakami. Achei bom, apesar das inúmeras referências aos órgãos genitais do personagem principal - não entendo como alguém pode escrever sobre bolas sem rir internamente como uma colegial - mas muito cruel aqui e ali. Quase abandonei o livro por completo quando, em um dos capítulos, há a descrição longa e muito detalhada dos assassinatos de uns três ou quatro gatinhos seguidos. E por nada, por nenhum motivo aparente a não ser justificar o assassinato do assassino de gatinhos como algo muito inevitável e até justo quando mesmo um gato morto já seria suficiente.
Não há nada de errado com assassinos de gatinhos no universo fantástico dos livros, filmes, etc.. Pelo menos não eram cachorros - algo realmente repreensível. Além disso, vilões capazes de atos abomináveis são importantes, necessários em qualquer história interessante, mas tem de haver propósito para tal e alguma gentileza - sim, gentileza - ao retratar o mal.
Da forma que ele colocou, pareceu prazeroso descrever com minúcia algo relacionado à decapitação de gatinhos assim como alguém gosta de ser amarrado e queimado repetidas vezes com um cigarro aceso. Como se a imagem já não fosse perturbadora por si só, ficou como um exagero de sadomasoquismo e, portanto, uma terrível falta de estilo, de gosto. Algo como a visão de uma menina coberta de tatuagens e montanhas de piercings - e para quê?
Há pouco tempo vi um filme em que mocinha seqüestrada escapa bravamente do cativeiro (enquanto isso, sua filha de seis, sete anos de idade e uma graça de corte de cabelo procura por ela) só para acidentalmente reencontrar o assassino e ser morta sem nenhuma piedade da forma mais sangrenta possível. Tudo bem, o filme tratava da questão humana e tal, mas foi um exagero muito exagerado, algo tão cruel que foi difícil de perdoar mesmo sendo completamente fictício. Afinal, justamente pela realidade ser tão terrível, espera-se um pouco de tato, de cuidado em uma ficção, mesmo que ela seja muito realista.
Não digo que as pessoas jamais deveriam sofrer mortes terríveis em um livro ou outro, mas tem de haver alguma humanidade. Em Seven, eles nunca mostram a cabeça da Gwyneth Paltrow grávida dentro da caixa. Lembro de quando eu li Laranja Mecânica e podia sentir a dor do Alex, abandonado pela família e perseguido por todos, como se fosse a minha, mas havia algum outro lugar para se chegar depois de tanto sofrimento, além de uma sensibilidade, uma sutileza tocante e melancólica ao tratar de todas as coisas terríveis que aconteciam. Era, na medida do possível, bonito.
Se a dor e a morte são inevitáveis, prefiro que me falem delas com a voz baixa. Ninguém jamais vai querer ouvir a notícia de uma tia morta através de berros incansáveis. Da mesma forma, um vilão, um assassino louco e terrível não precisa usar roupas pretas, um pentagrama e se cobrir de sangue para se tornar realmente assustador - ao contrário.