Convivendo intensivamente com estranhos em um ambiente diferente, percebi algumas idiossincrasias minhas:
- Eu não consigo ficar parada, mesmo que eu fique vagando devagarzinho para um lado ou para outro, não tem nada pior do que ficar encostada em uma parede. Mesmo quando tenho de ficar encostada em uma parede, eu fico meio balançando e mexendo no eixo - só pra dar alguma sensação de movimento.
- Eu piso torto. Aparentemente eu coloco mais peso no pé direito - sei disso porque foi o lugar onde apareceu o primeiro calo, o pior calo de todos, que me incomodava até na hora de dormir quando esbarrava no edredon. Agora meio que passou, mas formou uma couraça em cima.
- Eu me canso facilmente. Saio do trabalho às 21hrs. A faixa etária dos meus colegas é de 20 à 30 anos. Todo mundo, TODO MUNDO, quer sair do trabalho e fazer alguma outra coisa - ir em um show, em um bar, no boliche, qualquer coisa. Eu juro que não entendo como que isso é fisicamente possível. Às 21hrs, eu quero comer, dormir e nunca mais sair de casa. E eu sou das mais novas.
- Minha maneira natural e automática de lidar com o que eu abomino é puro embaraço. Timidez, até. Acho engraçado. É como se eu encontrasse uma pessoa muito bonita e muito inteligente, que eu quero muito impressionar e parecer bacana e simpática, só que na verdade eu tô lidando com um monte de gente besta que eu sei que nunca mais vou ver na vida - não sei porque fico nervosa.
- Eu realmente tenho jeito com criança. Nunca consegui fazer uma voz diferente pra falar com criança, ou usar termos mais simples. Quando criança, sempre achava babaca o adulto que fazia isso. Percebi, então, que eu preciso falar normalmente, admitir o que eu não sei, perguntar o que ela acha - não por gracinha, mas porque eles acertam mesmo - e principalmente explicar as coisas, argumentar. Eu não posso falar "não pode", eu tenho de falar "não pode porque se você fizer isso vai acontecer isso e aí já era"- pronto - a criança sossega na hora.
- Eu realmente não sinto simpatia por gente maluca, não importa o que ela tenha vivido que tenha deixado ela maluca. E detesto quem tenta explicar comportamento de gente maluca e tenta muito forçar alguma humanidade que simplesmente não tá ali dentro.
- Algumas crianças são nojentas. Eu percebi que diferencio as crianças nojentas que serão adultos nojentos das crianças que estão se fazendo de nojentas mas são pessoas de verdade porque a criança que tá se fazendo de nojenta só faz nojentice com platéia. Gente nojenta de verdade é nojenta sem ninguém ver - eles não olham pra sua cara, dando risada, com jeito de "viu o que eu fiz?". Ela só é nojenta e pronto.
- Eu tenho preguiça de verbalizar as coisas. Meu cumprimento é uma coisa com os cílios. Eu aperto os olhos, faço umas covinhas na bochecha e sem abrir a boca, sem mostrar uma faixinha sequer de dente, eu dou "oi". Os músculos da minha boca parecem ficar mais confortáveis quando fechada. Quando quero dizer "putz, mas esse tempo que não passa, ai que saco" meio que faço só com as sobrancelhas. É mais fácil, mais rápido.
- Tenho medo de grupos de pessoas que decidem conversar. Se tem mais de quatro, eu já prefiro formar o meu próprio grupo paralelamente com no máximo três. Detesto sentar numa mesa com oito, dez pessoas, sendo que você só vai falar mesmo com os dois que estão do seu lado.
- Pessoas extrovertidas me assustam. Gente que usa ou usou dread na vida, gay que só comenta sobre o fato de ser gay, que associa tudo à pênis, gente que prefere lidar com adolescentes do que com crianças pequenas... Tudo isso me assusta. Gente de arte me assusta muito. Gente que deseja muita paz, muita saúde. Medo, medo.
- Acho que peguei amidalite pra parar de falar pelos próximos dois dias. Fui gradativamente aumentando minha participação nos grupos de monitoria até alcançar um volume de voz bacana, e olha o que deu. Não tenho dificuldades pra falar em público e acho que até falo bem, mas realmente não é bom pro meu organismo.