Acredito que algumas pessoas estão "na jornada". Estamos todos em alguma jornada, mas designei o termo "na jornada" para me referir às pessoas que estão muito ocupadas com questões pessoais e coisas particulares para serem pessoas de verdade e realmente interagir e viver, etc.. São pessoas em jornadas de auto-conhecimento, que ainda não sabem bem o que fazer no mundo, que estão descobrindo o mundo e estão todas muito ocupadas ou não podem ainda definir posições mais ou menos sólidas na vida. Somos todos assim em estado permanente, mas essas pessoas estão naquela fase muito particular em que tais questões influem nas relações que fazem com o mundo, é tudo muito incerto. São pessoas na jornada delas mesmas. E credo, tô me sentindo o Paulo Coelho, mas é isso mesmo - são pessoas na jornada delas mesmas.
Se tenho alguma confiança pra dizer alguma besteira parecida é porque sei que já passei pela minha jornada e posso dizer qualquer coisa besta sem realmente me sentir besta porque, no fundo, eu sei que não sou nada besta - esse tipo de jornada. Outro tipo de jornada seria a pessoa decidir que raios de humor ela possui nesse mundo, se ela vai se permitir rir de piadas politicamente incorretas, de tetraplégicos albinos e coisas assim, ou se vai ser uma pessoa chata. Acredite, algumas pessoas ainda não sabem bem que posição tomar - e essas pessoas estão na jornada do auto-conhecimento.
Resolvi todas essas questões, todas essas preferências e configurações básicas muito cedo na vida, decidi basicamente o que era ok pra mim e o que nunca seria. Algumas mudanças ocorreram, ocorrem e ocorrerão, mas minha essência continua a mesma, até porque jamais poderia realmente mudá-la e ser completamente diferente, apenas ajustar aqui e ali a medida que vou experimentando a vida.
O que é realmente importante é descobrir tal essência, depois de dura investigação, e ser fiel à ela, acima de todas as coisas, tentar não se arrepender muito das coisas que se faz ou deixa de fazer e não dar muitos golpes na consciência - viver bem, sem culpas ou questões mal resolvidas, etc.. Tenho poucos arrependimentos e quase todos eu tentei reverter de alguma forma, para poder viver com aquele "pelo menos eu tentei" e ok.
Nada disso é novidade pra mim. Acho meio absurdo que tenha gente de vinte e poucos anos que ainda está "na jornada". Algumas pessoas aparentemente preferem sobreviver à realmente viver. Como a pessoa ainda não sabe? Depressão pode ser uma coisa muito 2002, mas acho que realmente ajuda, de uma forma de ou de outra, cedo ou tarde. Terapia também - não da forma direta que propõe, ninguém resolve seus problemas fazendo terapia, mas pelo exercício de pensar nas coisas, nas coisas da jornada e por ouvir a opinião de outra pessoa que, claro, pode ou não ser uma completa idiota. Com o tempo, você aprende que é importante se manter aberto pra tudo, mas que também deve aprender a selecionar realmente o que adotar como verdade.
O saco de lidar com pessoas ainda "na jornada" é que elas ainda não sabem bem o que querem da vida (inclusive sua presença ou ausência nessa jornada) e é tudo muito mutável e inconstante e inseguro e, enfim, me dá muita preguiça. O pior de tudo é perceber que a pessoa tem todo o potencial do mundo para realmente se tornar uma pessoa bacana (como eu, como você) mas ainda está em dúvida, pensando em seguir aquele outro caminho mais imbecil, o caminho das piadas politicamente corretas, por exemplo. E você tenta convencer ela de que, olha, vem por aqui, aqui é mais legal, não somos realmente maldosos, é só uma forma de rir dos problemas, das dificuldades da vida e tal, deixa eu te mostrar - mas a pessoa ainda não tem muita certeza se você é realmente confiável em assuntos de jornada e tal. Muito triste, muito frustrante.
Algumas coisas que encontrei "na jornada" (certezas sobre mim que sei que podem mudar aqui ou ali a medida que eu obtiver o conhecimento das causas, mas que devem continuar essencialmente as mesmas para todo o sempre):
- O retorno é o processo mais comum e correto com todas as coisas. Por exemplo, todo mundo (decente) começa com alguma opinião política formada, passa por uma fase besta de rebelião e depois retorna à outra opinião com alguns ajustes e sabendo o que se passa lá do lado de lá. Amadurecimento é retornar. O mesmo vale pra religião, gosto musical, tudo. Não pra tudo e literalmente, você entendeu - mas ok, um exemplo: Nas minhas fases mais chatinhas e prepotentes de adolescência, eu odiava punk, especialmente Ramones. Eu achava que nada que fosse tão simples, básico e repetitivo poderia ser considerado como "arte", que "arte" e "música de verdade" só poderia ser algo como Mogwai, em que a música não precisa de letras para se expressar, usando apenas melodias para transmitir emoções verdadeiramente humanas e importantes. Ou seja, eu não gostava de nada que fosse divertido, descomplicado. Pura chatice. Fez parte do meu amadurecimento musical, depois de anos, retornar aos Ramones e começar a entender de verdade e realmente apreciar, muito mais do que Mogwai. O retorno faz bem, é natural.
- Tudo que é despretensioso, descomplicado, etc, é melhor que o pretensioso, o complicado, etc. Claro, complexidade de qualquer espécie tem lá algum mérito discutível simplesmente por ser complexo, mas a complexidade sem propósito, a complexidade pela complexidade, não quer dizer nada. O simples é preferível. Tudo que é bom e aparentemente sem esforços possui um valor diferente. É uma questão de controle, de refinamento. Exagero é sempre muito brega - a não ser que o exagero sirva para justificar alguma outra coisa e não exista por si só, que não seja só pra mostrar como deu trabalho.
- Tudo que propõe entretenimento é infinitamente mais puro do que qualquer obra supostamente séria, "relevante", que proponha discussões socio-economicas-politico-religiosas. Por isso acho Godard o anti-Cristo, e Lars Von Trier também. Como alguém pode punir milhões de pessoas sendo tão chato? Tão sério? A vida por si só já é tão chata e o cinema realmente não é o lugar pra reforçar isso - muito pelo contrário. Por isso sou do time Truffaut.
- Eu sempre vou gostar de cachorros e bichos em geral. São as pessoas mais legais que eu conheço.
- Mentir, ser desonesto, ser trapaceiro, não fazer tudo direitinho, conforme às regras, tudo isso dá muito mais trabalho do que realmente fazer a coisa como deve ser. Em todas as situações, é bom nunca dar um motivo sequer pra ninguém reclamar de coisa nenhuma. É só ficar sempre do lado do bem, do correto. Isso evita tantos possíveis problemas. E mesmo que ninguém nunca descubra nada, o stress e a preocupação de talvez ser flagrado fazendo alguma coisa errada não vale a pena. Me dá gastrite. Mais fácil deixar tudo aberto, lidar com tudo de uma vez só, sem deixar motivo pra problema mais tarde. Sou uma pessoa muito nervosa, não tenho nem saúde pra fazer coisa errada. Isso inclui deixar muito claro quando não gosto de alguma coisa ou pessoa. Eu não posso conviver com algo que veementemente discordo ou detesto - começaria a ter alergias, coceiras, tiques.
- Acho que não vale a pena se envolver com as pessoas se não for possível e aceitável sentir nada por elas - digamos, ficar com elas por esporte, por diversão apenas, sem nenhum envolvimento emocional ou promessas de qualquer coisa. Acho muito difícil beijar e abraçar alguém sem qualquer chance mínima e remota de um futuro relacionamento com ela, seja qual for. Evito, por exemplo, me envolver fisicamente (mesmo que não exista mais nada além de uma atração física inicial) com pessoas em outros relacionamentos ou que realmente não estão disponíveis - porque eu me conheço, eu sei que naturalmente vou nutrir alguma coisa mais tarde, nem que seja um carinho extremo, uma vontade de ter por perto e conversar aqui e ali. Não precisa ser um casamento, mas precisa existir um acordo mútuo de que ok, com aquela pessoa você pode contar quando precisar, quando estiver com vontade de sair ou só ficar quietinha do lado, ser você mesma e não ter lá muitos limites pra nada. Acho tão simples, mas tem sido um problema chegar nesse acordo.
- Tudo deveria ser bonito, já dizia Lady Vingança. Tudo mesmo. Das capas dos livros às canecas da cozinha. Acredito muito e quero muito me rodear do que é muito bonito, das cores mais bonitas, das formas mais atraentes. Não é só uma caneta, um sapato, é uma extensão minha, uma escolha minha do que quero ter por perto todos os dias. Hábito meu quase sempre muito caro, mas é muito recompensador. Meu quarto é lindo, tem tudo que eu gosto. ^^
Eita, tá longo. Vou parar por agora. Depois continuo, ou não.