Sofia Skrum Agnem
Algumas pessoas tem ou tiveram cachorros, mas nunca dedicaram ou pensaram em dedicar tempo ou atenção que fossem suficientes para realmente conhecê-los. Cada cachorro possui uma personalidade - sim, uma "personalidade" - que é complexa e única. Muitas dessas personalidades são especialmente maravilhosas. Para perceber tal, é necessário um pouquinho de curiosidade, um pouquinho de amor. Não sei o que surge primeiro, se é a curiosidade ou o amor. Eu automaticamente amo todos os cachorros e, logo, sinto curiosidade em conhecê-los, brincar com eles, conversar com eles - mas talvez, somente a curiosidade em passar esse tempo com eles que pode tornar o amor possível. Não sei. Mas veja, estou usando a palavra "amor" porque dificilmente poderia usar outra. Não há absolutamente nada que possa justificar o carinho imenso que se sente por um cachorro, nenhum conceito Freudiano, nenhum tipo de interesse ou egoísmo. Trata-se de uma afeição em estado bruto, absoluta, pura, completamente desinteressada por alguém - sim, "alguém" - que não é nem mesmo da mesma espécie que você.
Acho tão bonito como, nos filmes do Ozu, parentes que não são consangüíneos estabelecem relações muito mais significantes, intensas e amorosas do que os filhos com os próprios pais. Para mim, isso significa a incrível capacidade de poder amar a qualquer um, por mais distante ou diferente; que eu sou capaz de estabelecer uma ligação forte e importante com qualquer pessoa, qualquer ser, qualquer coisa; que eu posso me tornar parente de qualquer um e escolher minha família em qualquer lugar.
Aos dez anos de idade, eu ganhei minha primeira cachorra, a Bia, e ela era extremamente complexa, muito mais complexa do que algumas pessoas que conheci. Ela era carinhosa, mas de forma muito séria, muito altiva. Ela não fazia gracinhas, ela não gostava de colo ou que a apertassem muito, mas ela gostava de atenção e de um tipo de afeto muito austero, quase frio e distante, mas ainda um afeto. A impressão que passava é que, apesar de gostar das pessoas ao seu redor, ela não queria se mostrar completamente vulnerável ou dependente - mesmo sendo um lhasa apso de lacinho.
A última vez que a vi, pouco antes dela morrer, foi durante uma madrugada. Eu já estava deitada quando ouvi ela chorando bem baixinho. Minha mãe tinha ido até a cozinha e fechado a porta da corredor. Eu levantei, abri a porta do meu quarto e perguntei "mamãe te deixou presa?" e ela me olhou toda envergonhada pela situação, talvez por não poder passar sem minha ajuda. Eu abri a porta para ela e ela me olhou de novo, me agradecendo silenciosamente. Ela era capaz de transmitir qualquer sentimento, por mais específico ou complicado que fosse. Era a cachorra mais envergonhada e pudica que eu já vi. Fazer xixi com alguém presente, olhando para ela, era uma tortura. Quando muito doentinha e fraca, ela preferia ficar sozinha - uma coisa muito Greta Garbo - mas sempre que a gente levava remédio ou comida para ela, por mais desagradável que fosse ou por mais cansada que estivesse, ela sempre nos agradecia com uma lambida fraca na mão.
Quando a Sofia chegou em casa, a Bia já estava velhinha. A Sofia tentava brincar com a Bia, pulando e batendo as patinhas no chão. A Bia virava a cabeça, visivelmente incomodada, como se estivesse sendo importunada em sua própria casa por uma pirralha. Mas sempre - sempre - que a Sofia chorava por qualquer motivo que fosse ou fazia qualquer barulho estranho, ela se levantava e se aproximava lentamente, com o pescoço muito esticado, cheirando a Sofia, tentando verificar se ela estava bem. Ela fazia o mesmo quando a gente ficava doente ou quando alguém começava a chorar. Ela era muito especial e eu sei que vou reencontrá-la algum dia.
A Sofia é completamente diferente, mas de uma forma muito boa. Ela nunca sente vergonha, nunca recusa qualquer tipo de atenção ou afeição - ao contrário, ela é sempre extremamente grata. Ela é curiosa, inteligente e sempre alegre, sempre disposta para seja o que for. Mesmo que a perturbem, ela não sabe bem o que fazer. Ela até pode rosnar um pouquinho mas, logo em seguida, ela dá umas lambidas como quem pede desculpas por ter perdido a calma. Ela não tem vergonha ou medo - não que ela seja muito corajosa, ao contrário, mas até o medo dela é uma coisa meio macarrônica, como uma brincadeira, como fingir que está com medo de uma garrafa plástica e, de repente, começar a rolar com ela pelo chão.
Sinto um orgulho verdadeiro pela Sofia ser da minha família e por ela ser tão maravilhosa. Algo que eu falo constantemente e sempre com o orgulho e a vaidade de um velhinho que conta sempre a mesma história é que a Sofia é a melhor pessoa que eu conheço. Não acho que ela seja tão legal quanto uma pessoa - eu acho realmente que ela é a melhor, o melhor ser, a melhor coisa, com a melhor personalidade. Eu queria ser mais como a Sofia, ser extremamente grata e disponível o tempo todo. Eu tenho tentado. É muito gostoso quando eu consigo.
Acho tão bonito como, nos filmes do Ozu, parentes que não são consangüíneos estabelecem relações muito mais significantes, intensas e amorosas do que os filhos com os próprios pais. Para mim, isso significa a incrível capacidade de poder amar a qualquer um, por mais distante ou diferente; que eu sou capaz de estabelecer uma ligação forte e importante com qualquer pessoa, qualquer ser, qualquer coisa; que eu posso me tornar parente de qualquer um e escolher minha família em qualquer lugar.
Aos dez anos de idade, eu ganhei minha primeira cachorra, a Bia, e ela era extremamente complexa, muito mais complexa do que algumas pessoas que conheci. Ela era carinhosa, mas de forma muito séria, muito altiva. Ela não fazia gracinhas, ela não gostava de colo ou que a apertassem muito, mas ela gostava de atenção e de um tipo de afeto muito austero, quase frio e distante, mas ainda um afeto. A impressão que passava é que, apesar de gostar das pessoas ao seu redor, ela não queria se mostrar completamente vulnerável ou dependente - mesmo sendo um lhasa apso de lacinho.
A última vez que a vi, pouco antes dela morrer, foi durante uma madrugada. Eu já estava deitada quando ouvi ela chorando bem baixinho. Minha mãe tinha ido até a cozinha e fechado a porta da corredor. Eu levantei, abri a porta do meu quarto e perguntei "mamãe te deixou presa?" e ela me olhou toda envergonhada pela situação, talvez por não poder passar sem minha ajuda. Eu abri a porta para ela e ela me olhou de novo, me agradecendo silenciosamente. Ela era capaz de transmitir qualquer sentimento, por mais específico ou complicado que fosse. Era a cachorra mais envergonhada e pudica que eu já vi. Fazer xixi com alguém presente, olhando para ela, era uma tortura. Quando muito doentinha e fraca, ela preferia ficar sozinha - uma coisa muito Greta Garbo - mas sempre que a gente levava remédio ou comida para ela, por mais desagradável que fosse ou por mais cansada que estivesse, ela sempre nos agradecia com uma lambida fraca na mão.
Quando a Sofia chegou em casa, a Bia já estava velhinha. A Sofia tentava brincar com a Bia, pulando e batendo as patinhas no chão. A Bia virava a cabeça, visivelmente incomodada, como se estivesse sendo importunada em sua própria casa por uma pirralha. Mas sempre - sempre - que a Sofia chorava por qualquer motivo que fosse ou fazia qualquer barulho estranho, ela se levantava e se aproximava lentamente, com o pescoço muito esticado, cheirando a Sofia, tentando verificar se ela estava bem. Ela fazia o mesmo quando a gente ficava doente ou quando alguém começava a chorar. Ela era muito especial e eu sei que vou reencontrá-la algum dia.
A Sofia é completamente diferente, mas de uma forma muito boa. Ela nunca sente vergonha, nunca recusa qualquer tipo de atenção ou afeição - ao contrário, ela é sempre extremamente grata. Ela é curiosa, inteligente e sempre alegre, sempre disposta para seja o que for. Mesmo que a perturbem, ela não sabe bem o que fazer. Ela até pode rosnar um pouquinho mas, logo em seguida, ela dá umas lambidas como quem pede desculpas por ter perdido a calma. Ela não tem vergonha ou medo - não que ela seja muito corajosa, ao contrário, mas até o medo dela é uma coisa meio macarrônica, como uma brincadeira, como fingir que está com medo de uma garrafa plástica e, de repente, começar a rolar com ela pelo chão.
Sinto um orgulho verdadeiro pela Sofia ser da minha família e por ela ser tão maravilhosa. Algo que eu falo constantemente e sempre com o orgulho e a vaidade de um velhinho que conta sempre a mesma história é que a Sofia é a melhor pessoa que eu conheço. Não acho que ela seja tão legal quanto uma pessoa - eu acho realmente que ela é a melhor, o melhor ser, a melhor coisa, com a melhor personalidade. Eu queria ser mais como a Sofia, ser extremamente grata e disponível o tempo todo. Eu tenho tentado. É muito gostoso quando eu consigo.
