Million Dollar Kiss
The Ego's Last Stand.

19.8.07

Mr. Lee

Eu gostaria de ler uma biografia do Bruce Lee em que ele tivesse rinite. Que, quando muito nervoso, a pele irritava e ele ficava cheio de bolinhas vermelhas. Que, umas duas vezes na vida, comeu muito chocolate e, por alguma reação alérgica, a boca inchou. Que aquelas sapatilhas machucavam o calcanhar e, toda noite, Bruce Lee colocava band-aids. Que dependia da confecção do sapato comprar um 38 ou 39. E que era muito difícil domar aquele cabelo.
Bruce Lee ia em shopping?
Toda vez que me corto com papel, penso em Bruce Lee. Bruce Lee jamais se importaria com isso porque isso jamais aconteceria com Bruce Lee. Bruce Lee não precisava ler, ele dominava todos os segredos do universo. Quase tudo pelo que passo não é coisa que Bruce Lee tinha de enfrentar. Mães, por exemplo. Bruce Lee não tinha mãe, ele sempre esteve aqui, ele é a origem e o fim do universo.
Bruce Lee é quase um Rei Leônidas, mas é muito difícil de se praticar o modo Bruce Lee de ser.
Bruce Lee não se apaixonava porque ele era muito superior e, portanto, Bruce Lee não tinha de lidar com emoções. Bruce Lee era perfeito demais para emoções e não tinha cutícula também - as minhas estão terríveis.
Querer ser como Bruce Lee sabendo das próprias limitações naturais - eu falo os "erres" e me envergonho disso - é um dos terrores da existência. Acho que Camus comentou algo sobre isso. Sartre não, Sartre não acreditava em Bruce Lee. Vesgo idiota.
Eu até gosto um pouquinho de babar e sofrer por um box das aventuras do Antoine Doinel da Criterion, mas sei que Bruce Lee jamais se deixaria abalar por isso. Bruce Lee seria imune a todas as coisas. Bruce Lee, pasme, não precisava de Truffaut. Porque tudo está em Bruce Lee e, se você olhar bem as fotos, vai ver que o cotovelo dele é a cara do Tarantino. O joelho? Fellini. Salinger escondido no umbigo de Bruce Lee.
Tudo está contido em Bruce Lee, eu e você também. Somos todos partes de Bruce Lee e ansiamos pelas outras partes, todas muito boas, ótimas batatas da perna (a da esquerda é Anita Ekberg), pulsos maravilhosos, orelhas divinas.
Jamais poderemos ser indivíduos completos se separados, mas podemos juntos fazer parte do mesmo Bruce Lee se nos esforçarmos para sermos awesome.
Tal caminho não é simples e, sinceramente, enche meu coração de aflição e dúvida, mas realmente sinto que, como seres inferiores que somos, é o nosso dever, que é a coisa certa, mesmo que muito difícil - fazer, pelo menos, parte de Bruce Lee.

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